O maior engarrafamento do mundo?

Fresco da experiência “maior aula de judo do mundo”, ocorrida hoje de manhã na baixa do Porto. Nada contra a iniciativa em si, de objectivos mui meritórios. Agora que programem isto para um dia da semana e encravem o trânsito de milhares de condutores, muitos dos quais em trânsito de trabalho, é de um desrespeito total para com os cidadãos.

Milhares de horas de trabalho perdidas. Da minha parte, tive de adiar uma reunião e cheguei tarde a outra. Multipliquemos este descarrilamento de agenda por pelo menos 50% dos veículos, e começamos a ter uma ideia do verdadeiro preço desta iniciativa. O país precisa é de festa à semana, não é verdade? Bem no centro da cidade, pois então? O arco-íris fica bem, neste caso a simbolizar o desvairo fantasioso de quem programa estas acções “públicas”.

De que serve cortar em feriados e sujeitar os cidadãos a estas aleatoriedades? O mesmo no que diz respeito às infinitas situações de impunidade em hora de ponta, como as dos camiões minipreço a fazer descargas nas lojas às 8h45 da manhã, ocupando faixas inteiras, criando engarrafamentos diários na maior das serenidades.
Abismal seria um cômputo das horas de trabalho que se perdem diariamente a nível nacional por este caos de trânsito impune, motivado pela falta de coragem para um efectivo planeamento de circulação urbana. Dava para um mês de feriado.

Que seria bem-vindo, para recuperar deste inferno que é conduzir por entre latas mal paradas, faixas inteiras de carros com e sem piscas, judokas, manobras impossíveis, ilegalidades várias, cargas e descargas, conversinhas do volante para o passeio, condutores a 5 à hora que subitamente aceleram para passar os amarelos feitos vermelhos, peões deambulantes e perpetuamente daltónicos.

A maior aula de judo ajudou ao maior engarrafamento do mundo: ele acontece todas as belas manhãs no nosso país, sem que ninguém lhe ponha mão. Nem autoridades, nem cidadãos. Haja paciência, não vejo outra solução senão respirar fundo e seguir gincana adiante.

Descubra as Sete Diferenças…

… nem sete há! São simples variações do teatro mediático para reafirmação do status quo. Nasceu uma estrela, há que apresentá-la ao mundo com uma cerimónia de greve geral, pois então. Como se estas greves gerais algum dia tivessem obtido o que quer que fosse. Entre as greves, a bola e os programas do mui medíocre Sr. Jorge Gabriel, adensa-se este estupor.

Entretanto o dia nasceu mais agressivo, mais entupido, mais desesperante. A mim só me dá vontade e determinação para trabalhar mais e melhor.

 

3:33 Speaks.

It will surface sooner than you think. Tomorrow, March 3rd, at 3:33 pm, Mr. 33 will give his first radio interview.

WHY NOT 3:33?

a draft manifesto on the possible advantages of yet another quasi-exclusively online music label

 

3:33: What?
3:33 is a music label specialising in random audio cut, paste and chop. We appropriate unnamed sources and superimpose three of them at a time, without prior listening. We then proceed to chop them off at 3 minutes and 33 seconds, and round it all up nicely in the shape of a good old-fashioned single, a-side and b-side included. A c-side is currently under consideration.

Basically: why 3:33?
Because there’s too much of everything lying around, and not enough time in the day. A 3-in-1 listening experience allows you to take in more at any given moment.

Aesthetically: why 3:33?
Despite huge mash-up acrobatics in the last few decades, the potential for aesthetic innovation emerging from random collage still applies in 2012. Moreso, we dare say, we declare the absolute need to short-circuit ongoing trends and the allure of kawai!

Historically: why 3:33?
Musicians who have never met thus collaborate, often without their own knowledge. If we begin by appropriating (are we pirates?), soon enough we hope to welcome voluntary submissions for the big random triangular mash-up. Also, the shape of a single is a totally obvious nod to nostalgia and pastiche, an approach we believe contrasts quite nicely with the noisy sh*t going on content-wise.

Ideologically: why 3:33?
Because it addresses issues of appropriation, digital over-abundance, access wars, piracy, theft, authorship, power, abuse, arrogance, cultural fatigue, cynicism, hyper-conformism, and the vertigo of laptop culture. It tries to provide these with context, structure, form, and predictability within randomness. There are things to be said about all these things, and we want to say them primarily by making.

3:33: how much?
All free for online taking, baby. With one honourable exception, which is the yearly vinyl 7” edition condensing all releases. More on this in due time.

Timewise: why 3:33?
Because 4:33 would most likely get us into legal trouble, and we hope this won’t.

3:33: Who?
We shall remain unnamed. Needless to say, there are 3 of us behind the curtain.

3:33: How?
Mr. 3 awaits your praise and submissions.
You may instead prefer to contact mr. 33.
Or alternatively, you may contact mr. 333.
Soon, very soon they will make themselves available.

Now salivate!

autodigest vol.5 out now!

New autodigest release is now available!
Volume 5: unlearn all languages in 15 minutes.
Out on Touch Radio now.
Free, of course.

autodigest
unlearn all languages in 15 minutes
Volume five in an ongoing series.
Self-assembled and reversed in February 2012.
Photography: Heitor Alvelos

Why not pay a humble tribute to the golden age of backmasking? Once upon a time, radio DJs would go up in flames accusing pop records of containing satanic messages woven backwards onto the groove. These would then supposedly make their way onto your teenage subconscious, and from its depths command you to do very bad things.

Echoes of the Altamont and Manson traumas aside, it was all a bit naive when compared to the magnitude of the very shady side of the entertainment industry nowadays, where worthwhile pop music once again becomes demonised: the recent, heavy policy proposals against online piracy, the terrorist-like shutdown of megaupload, the steamroller-like production-line of prime-time karaoke, the pervasive disgust of auto-tuning, the endless parade of cute iGadgets valiantly ignoring the abyss of over-consumption and worldwide economic meltdown.

Hubris, Icarus, Tower of Babel… Some say the future is once again in the local. Let’s just forget all those un-local languages, then. Press play, unlearn them all, quickly and painlessly. Bliss.

Como Arquivar Cidades?

Vou falar nesta sessão com James Elkins, numa mesa redonda a 15 de Fevereiro no CAAA de Guimarães.

James Elkins foi meu professor de mestrado, na School of the Art Institute of Chicago, há 21 anos. Frequentei o seu seminário “500 years of Strange Images”, que mais tarde se veio a converter no livro “The Domain of Images”. Dia 15 será incontronável, imperdível para quem procura compreender a imagem em múltiplas e enormemente férteis perspectivas históricas, conceptuais e mesmo ideológicas.

Ajuda o facto de o bullshit level de Elkins ser muito próximo do zero. Discurso erudito sem pompa. Uma raridade nas nossas bandas, mais uma razão para assistir.

Not me, George.

Não gostar do Nespresso não é mania, nem tão pouco é ser retrógrado. É simultaneamente visceral, social e existencial. Passo a explicar, sem pompa:

O Nespresso é demasiado slick para o meu gosto. É clean, indolor, irreal. Não suja, não verte, não precisa de ser medido. Tem cores giras para distinguir tipos de café que no final de contas sabem ao mesmo. É marketing de exotismo, entre a infantilidade de uma caixa de lápis de cor e uma montra de perfumes.

O Nespresso abdica do ritual de fazer o café. É assim como estalar os dedos e plim, aparece. Num mundo que está a deitar tudo o que é artesanato pelo esgoto abaixo, até o processo de fazer um raio de um café começa a merecer ser candidatado a património imaterial.

O Nespresso entra na onda da pseudo-sensualidade iPhone, outro “pet hate” meu: os sentidos aprendem a deixar-se levar pelo inócuo, pelo “slick”, pelo dedinho que desliza no ecran, pela unha arranjada que levanta uma capsulazinha de Nespresso de uma caixa de tesouro. Ritual de consumismo cínico, põe-nos a todos a viver o anúncio televisivo em primeira mão. Smooth jazz genérico, sussurros lânguidos, Clooneys a piscar o olho, baby. Bolas, só queria beber um CAFÉ.

O Nespresso faz o café abdicar da sua condição universal. Tal como a Apple mudou subtil, eficaz e irreversivelmente o paradigma do software, que antes cumpria o mui louvável e inquestionável princípio de máxima versatilidade e compatibilidade entre sistemas, e agora encerra o seu software exclusivamente em iPads e iFins, o acto de tomar um café, por via do Nespresso, deixa de ser um acto social que nos aproxima, para passar a ser um filme exclusivo e narcisista de luxo. Nespresso Club, vantagens exclusivas, blá blá blá. O problema é que o povinho parece estar todo a encenar o exclusivo: ou seja, passa a ser o teatro da sofisticação, quando na verdade é do mais trivial e massificado que há.

O Nespresso convida-nos a deixar de ir ao café, onde praticamos há décadas o dever cívico de “atestar os neurónios” enquanto mandamos umas bocas com os nossos concidadãos, antes de seguir em frente. Fecha-nos sobre nós próprios: ficamos na nossa sala feng-shui a beberricar a amostrinha VIP que saiu da cápsula dourada, enquanto deslizamos os dedos pelas apps iPad e ouvimos um single acabadinho de comprar no iTunes no sistema 5.1. Life’s so cool, huh? Os tugas já são ensimesmados q.b., se até de tomar o cafezinho no café da esquina abdicamos, o que resta como cenário de quotidiano partilhado?

O Nespresso é péssimo para o ambiente. É desperdício em larga escala. Bem podem propagandear a reciclagem das cápsulas, a maioria das gentes é preguiçosa e o alumínio junta-se às lixeiras ilegais que povoarão os países sem lei. Literalmente, defecamos nos pobres que tiveram o azar de nascer no Terceiro Mundo. Não é só obra do Nespresso, mas o Nespresso ajuda.

Uma palavra final para o triste teatro das lojas em época de consumismo pavloviano, Natal à cabeça. Filas intermináveis, aberrantes. O investimento de tempo versus o retorno em tretas de cores. A loja Nespresso que abriu na Avenida da Boavista, no Porto, é agora responsável pela ocupação quase permanente de uma faixa de rodagem por gente de quatro piscas que “vai ali nun’stantinho” buscar mais uns alumínios. Nenhuma autoridade local põe fim a esta vergonha, e a Nespresso borrifando-se para o caso.

Nespresso: What Else? Everything Else But, George.

Orgulho e vergonha na abertura de Guimarães 2012

A minha apreciação do dia de abertura da Capital Europeia da Cultura

Não podia deixar de ir; tinha outros chamamentos, mas entendi que estar tão perto e não ir seria trair os mais básicos princípios – da amizade para com vários dos efectivos obreiros e autores deste projecto, antes de mais, e do enorme orgulho que deriva de saber em primeira mão como Guimarães 2012 foi resgatado ao outrora iminente abismo por gente generosa, inteligente e vertical.

Não me arrependi de ter ido. Foi bom ver a cidade vibrante, uma população a acordar para a possibilidade de mudança, curiosa e receptiva perante o estranho, enquanto intuitivamente re-posiciona o seu próprio espaço, geográfico e afectivo, para que ele passe realmente a servir a felicidade na qual todos merecemos viver em estado contínuo. Havia verdadeira emoção nas pessoas, benevolente, tão longe da proverbial selvajaria eufórica da bola.

Comecei de tarde pela exposição de fotografia documental “A Cidade da Muralha”, patente no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, com o privilégio de ser acompanhado pelo seu comissário e designer, que me ofereceram amplas oportunidades de um olhar acrescido. Um excelente trabalho de re-posicionamento da imagem de arquivo, formalmente cumpridor para logo revelar uma dimensão lúdica imensamente gratificante. Eduardo Brito contou histórias de como tem havido visitantes da exposição que reconhecem nas fotografias os seus familiares, e mesmo uma senhora idosa que se encontrou retratada na sua infância. É assim o prenúncio de um arquivo vivo, a ressuscitar pelas mãos dos seus efectivos herdeiros, em sentido literal e patrimonial. Uma exposição quase perfeita, apenas com o senão de reservar uma sala inteira a uma projecção interactiva via iPad, no meu entender uma concessão excessiva (em termos de área concedida) à equação digital.

A exposição seguinte, Cartografias da Memória e do Quotidiano, foi novamente uma agradabilíssima surpresa. Seis artistas/ilustradores foram convidados a registar, ensaiar e comunicar sentidos a partir do dia-a-dia da cidade. O resultado é deslumbrante, na medida em que de súbito a cidade percebe que é fotogénica e cinemática para além do monumento ou do postal ilustrado. A exposição é uma proposta, antes de mais dirigida aos habitantes de Guimarães, para que re-observem os espaços que cruzam e habitam diariamente, para que reconheçam as suas histórias que complementam e alimentam as “grandes narrativas” da História e dos media. Foi precisamente neste acto de re-conhecimento que outras cidades se re-inventaram, e assim se puderam projectar. Em complemento à exposição, existem outdoors pela cidade que reforçam esse convite de inscrição colectiva do espaço. Augé would be proud, mas a exposição vai mais além dos seus “não-lugares”, entretanto semanticamente esgotados por uma apropriação da designação para fins de romanticização das chagas urbanas.

Na exposição Cartografias da Memória e do Quotidiano, nota menos favorável para o título e respectivo texto introdutório: o síndroma da escrita hermética e rebuscada em contradição directa com o brilho das obras expostas, que se explicavam a si mesmas. Porque não chamar à exposição “Mapas do Dia-a-Dia?”… Seria infinitamente mais apelativo, universal e decifrável. O design do mapa da cidade foi o outro ponto desfavorável numa exposição em tudo o resto exemplar: ignorando os mais básicos princípios de legibilidade sobre os quais assenta a própria cartografia (que ironia!), sobrepôs uma legenda pesada e fragmentada ao mapa propriamente dito, criando assim uma sopa onde a identificação dos locais se torna num exercício penoso ou até impossível.

O momento da vergonha estava marcado para as 18 horas: a cerimónia oficial de abertura do Guimarães 2012, a decorrer no pavilhão multiusos, e com entrada por convite ou aquisição prévia de bilhete. Não contesto esta filtragem, compreendo os mecanismos mediáticos e as lógicas contextuais. Passemos adiante.

Não fora o brilho das exposições, das gentes e da noite subsequente, teria regressado profundamente deprimido. A cerimónia de abertura foi, numa palavra, insultuosa.

A coisa começou bem, com a primeira apresentação pública da nova orquestra da cidade, de vocação internacional (a Fundação Orquestra Estúdio). Mas de imediato se transmutou num exercício protocolar doloroso de tão caricato. Seis autoridades, entre as quais o Presidente da República, o Primeiro Ministro e o Presidente da Comissão Europeia, esvaziam-nos gradualmente de força anímica durante a hora seguinte, por via de discursos ultra-protocolares regados de clichés, completamente isentos de qualquer afirmação tangível, afectiva ou comprovativa do seu efectivo conhecimento da realidade em causa.

Cada discurso começou com um extensíssimo e penoso rol de “Excelentíssimos Digníssimos Magníficos Doutores Presidentes”, tornando desde logo bem claro que, pela vontade dos oradores, nem por um segundo Guimarães 2012 seria ponto de partida para uma igualdade de condição, mesmo que apenas enunciada. Porque não começar um discurso com “Caros Vimaranenses, porque todos hoje somos, antes de mais, Vimaranenses”?…

Ultrapassada a barragem de saudações, cada discurso seguiu, previsível, cínico, insuportável, pelo rol de clichés das “indústrias criativas”, da “História”, da “honra”, da “inovação” e do “futuro”. Sem uma ideia, uma ruptura de um guião seguido milimetricamente há décadas, uma emoção. OK, assim são as cerimónias protocolares das altas esferas – mas precisamente porque as esferas são altas, porque estes senhores chamaram a si a soberania, teriam a possibilidade (mais: a obrigação) de transformar estes momentos em efectivos momentos de viragem na consciência dos presentes e dos que, nas televisões de Portugal e do Mundo, os terão ouvido e escrutinado. Por outras palavras: eles fazem o que querem, e -escolhem- fazer isto.

A vergonha acentuou-se pela evidência de que todos os oradores eram homens. Curiosamente, a segunda figura do Estado estava na audiência, e é uma mulher. É certo que a sua vocação protocolar não é oratória, mas outras figuras estatutárias existiriam para, na eventual indisponibilidade da Presidente da Assembleia da República, assegurar uma presença feminina no pódio. A Europa observa-nos e toma nota: Portugal continua a ser machista, e, pior, continua a não se dar conta. Na mesma linha de pensamento, e já que falamos de acto inaugural protocolar, quão importante teria sido ouvir um testemunho de um anónimo representante dos cidadãos de Guimarães! Quão importante teria sido ouvir uma criança, acto simbólico de projecção futura! Em vez deste campo de possibilidades, levámos com mais do mesmo, por parte dos actuais protagonistas do circo de poder.

Esclareço que este não é, de todo, um desabafo de conotações político-partidárias. Escolho colocar essa esfera fora destas observações, porque elas se destinam a comentar o contexto e o projecto Guimarães 2012, à parte do ruído insuportável e voraz da catástrofe mundial.

Findos os discursos, entram em cena três senhoras para levar as bandeiras protocolares. Apreciando a ironia da situação na supracitada perspectiva machista, a audiência aplaudiu-as. De facto, só faltava terem ido de bikini.

Terminado o segundo excelente momento musical por mão da Fundação Orquestra Estúdio, começa o espectáculo multimédia “Os Nossos Afetos”. Bem sei que, transmitido ao vivo pela RTP, o objecto estético destas ocasiões não pode ser vanguarda abstracta. Mas também não precisa, não deve, ser o mínimo denominador comum. Uma música new age estereotipada acompanhando corpos bamboleantes embrulhados em véus, numa suposta estilização da épica História local? Temos um património que começa a ser grande e consistente de criadores contemporâneos de projecção e reconhecimento internacional, e optam por um sucedâneo kitsch do Cirque du Soleil, ele mesmo já ultra-kitsch.

Uma meia hora depois, desabafo com um cidadão holandês na zona do bar (confesso: abandonei a coisa a meio, quando uma ninfa vaporosa esvoaçava, pendurada por uns ganchos, por cima de um herói): ele reiterava a ideia, que subscrevo, de que estes espectáculos não podem evidentemente ser herméticos, nem em termos estéticos, nem em termos semânticos. Para chegar a “todos”, têm de ser acessíveis, esteticamente próximos do consenso mainstream. Concordando com este princípio, ainda assim contra-argumento que é possível elevarmos a fasquia dentro desse território. O que vi ontem foi algo muito próximo da preguiça estética e intelectual do Tony Carreira, mas sem sua a transparência, e com um verniz de erudição de secagem rápida. Teria, muito sinceramente, preferido o Tony. E não o suporto.

O problema seguinte, e a minha última observação negativa, foi a desadequação do horário do evento seguinte. Tendo a cerimónia protocolar terminado cerca das 20h30, havia 15,000 pessoas a querer jantar antes do espectáculo dos Fura dels Baus, marcado para as 22h, e iniciado rigorosamente a essa hora. Encontrar um restaurante em Guimarães nesta noite seria sempre difícil; quando nos convidam a regressar ao centro, encontrar onde comer, esperar a comida num restaurante sobre-lotado, e rumar ao Largo do Toural para assistir ao espectáculo, a hora e meia concedida foi um erro de cálculo evitável. Ou talvez apenas o reconhecimento de que o espectáculo das 22h era primeiramente dedicado a todos os que não couberam no pavilhão multi-usos. Mesmo assim, os digníssimos que ajustassem as agendas para a cerimónia protocolar começar às 17h… Haveria uma multiplicidade de formas de conjugação de horários, para que não nos pedissem o impossível em hora e meia.

Tudo isto para dizer que cheguei tarde aos Fura. Praça a abarrotar. Vimos as coisas de longe, ecos apenas do que seria assistir à acção no centro da praça, ou mesmo “na TV”. Esta terá sido a quarta vez que vi os Fura dels Baus: dos três espectáculos anteriores, ficara-me a memória de encenações de violência, transgressão, adrenalina e provocação. Compreendera desde logo que este espectáculo seria diferente: em nome do tal “mainstream” e da própria segurança pública (a multidão, comprimida na praça e arredores, seria uma bomba suicida na eventualidade de um pânico).

Os Fura terão tido a inteligência de compreender isto mesmo, e criaram um espectáculo lento, neutro e inofensivo. No que me foi dado a ver de longe, funcionou. O fascínio da escala do Homem e do Cavalo, as projecções simbólicas, as cores e o fogo de artifício final, criaram de forma articulada o “momento mágico” que, este sim, se quer relativamente previsível (ao contrário dos tais discursos protocolares, que deviam abrir possibilidades). É um ritual de fundo, enquanto o momento é vivido como comunhão simbólica de afectos. Isso se viu em seguida, nos cafés, nos bares, nas ruas estreitas: gente a falar com desconhecidos, a improvisar formas de ocupar os espaços sobre-lotados, gente com esperança, bem-disposta, que começa a ser coisa rara. Acredito verdadeiramente que será possível que Guimarães 2012 redima muito do que o Porto 2001 deixou por cumprir, no imperativo de criar raízes e consequência para além do ano em causa. E para isso é necessário reconhecer os sucessos e apontar os erros, para que se tente ir ainda a tempo de os corrigir. Foi isso que tentei neste modesto contributo, nesta primeira hora.

Um abraço de parabéns aos autores deste primeiro momento, e toda a força do mundo para o ano extraordinário que agora começou!