Independence? Immunity? Impunity?

An essay on how the Arts may not be such a territory of independence after all.

English translation to follow, time permitting.

 

O Artista Imune

Heitor Alvelos

Síntese de comunicação apresentada no Encontro “Novas Dependências”

Universidade do Porto, Dezembro de 2007

 

Fala-se de dependência enquanto problema social, enquanto erro ou fraqueza ou tragédia do ser no papel que ele detém nesse social, particularmente numa cultura ocidental que, fazendo preceder o bom funcionamento do seu tecido colectivo do bem-estar do indivíduo, ironicamente pressupõe por parte do indivíduo uma contenção discursiva e comportamental do seu potencial, quiçá desejo, de desregulação e entrega.  

E, no entanto, ao artista sem tem desde sempre permitido a excentricidade, se exige o excesso, se concede imunidade do estigma da dependência. Uma parte considerável da vanguarda criativa que percorreu o Século XX acontece sob o véu da boémia, sob patrocínio de substâncias tóxicas, sob o imperativo do excesso e da subjectividade. O artista foi o herói numa narrativa na qual, pelas mesmas razões, o comum mortal é excluído e vilipendiado.

O termo “dependência” descreve, em particular, um estado ou estatuto de subalternidade – dependência é, essencialmente, a impossibilidade do destino em nome próprio, é ausência de autonomia e liberdade. E a liberdade tem sido, como sabemos, a bandeira do mundo ocidental, slogan militar e entretenimento em igual medida.  Acontece que a dependência tem múltiplas formas, e a toxicodependência como nova escravatura será uma face possível de um universo contemporâneo de dependências que se revela de muitas outras formas, muitas das quais se têm organizado em redor do conceito-chave de consumo. Shopping como actividade anti-depressiva, video-games, verborreia, voyeurismo, samplagem, euforia.

O artista perde o exclusivo da sua impunidade na medida em que todos nos viemos a tornar artistas. A tecnologia digital, e a cultura que entretando emergiu em seu redor, assim o permite: que a produção de conteúdos e o acto criativo passem a definir-se fora do pensamento humano, agora derivados de processos generativos e da vontade de expor e explorar o interface em si mesmo e por si mesmo. Entre Big Brother e Youtube, a todos passou a ser possível a observação externa do seu próprio quotidiano, a todos foi concedido o direito, o dever, de se transformarem em personagem, depois em blog, depois em marca. O vício já não está no consumo: estamos agora viciados em produzir. Produzir o quê, ou, acima de tudo, porquê, não nos tem interessado particularmente.

A partilha infinita de micro-quotidianos é embutida de dependência. Primeiro porque parecemos agora desejar fixar toda a nossa existência em narrativas descontínuas, depois porque os media nos convidam a um constante ensaiar de fotogenia circundante, depois porque alguém, algures, introduzirá as palavras-chave certas no Youtube e nos reconhecerá enquanto produtores de um qualquer significado. A produção tornou-se sobreabundante e entreteve-se nos seus processos até à irrelevância. Daí que o curator seja hoje mais decisivo e celebrado que o próprio artista rendido personagem: o acto criativo está hoje nas mãos do consumidor.

Num mundo de horizontalidade e hibridização, como pode a arte dos museus projectar-se enquanto proposta estética ou filosófica superior? Quando o virtuosismo passa a residir na programação e codificação, como pode o museu alguma vez voltar a defender a sua expansão formal e semântica?

A Arte reside hoje em outro lugar, depara-se com missões que não as regadas por substâncias ou imunes/impunes a uma deontologia: já não é admissível que se sustente em subjectividade nem em estado, e muito menos em estatuto. A Arte hoje necessita de se confrontar com a sua consequência, de se confrontar com os apelos urgentes que marcam a nossa contemporaneidade, da regeneração social à literacia visual e mediática, das novas dimensões humanas que se pressentem à emancipação do indivíduo.

Nada disto é necessariamente pacífico: como qualquer proposta de mudança, esta é igualmente dotada de violência, exigindo uma reinvenção do conceito de Arte junto do público e, principalmente, entre os próprios criativos. Exige-se uma concepção assumidamente operativa e consequente de Arte, a partir de hoje, enquanto Ecologia da Criação e do Consumo. E será este o dia da sua efectiva emancipação.

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