A gaja do Magnum agora anda por Santa Apolónia

Chego eu de metro à estação CP de Lisboa Santa Apolónia para apanhar o alfa para o Porto, um par de minutos sobrantes depois de esperar para comprar bilhete numa fila de turistas frente a máquinas relativamente indecifráveis.

Eis senão quando a nossa amiga da publicidade ao gelado Magnum se faz ouvir pelos altifalantes da estação: “Senhores passageiros… o comboio estacionado na linha… seis… tem partida às… 11 horas… e… cinquenta e três… minutos”. A mesma voz sussurrante, suspirante, insinuante, orgasmico-discreta quanto baste. A mesma voz que volta e meia nos intervalos do Malato nos tenta convencer que um gelado Magnum (ou outra treta qualquer) é assim mais ou menos como uma queca embebida de sensualidade e chocolate derretido (não demasiado para não ferir susceptibilidades, bem entendido). A mesma voz é agora chapada nos serviços de transportes públicos. Tal como a EDP, depois de comprar um logo muito “lounge”, anda entretidíssima a produzir cartazes muito cool, muito clever, muito 2012. OK, miss EDP, we love you too, baby. Goddammit, it’s just freakin’ electricity.

Nada disto é grave ou apocalíptico em si mesmo. Mas acrescenta-se ao trágico de assistir aos modos silenciosos como o erotismo, complexo, profundo e potencialmente espiritual, é gradualmente substituído pela sua própria simulação em versão light, desinfectada, banal – e começa a invadir espaços, físicos e mentais, que não precisam de erotismo para nada: a arte da sedução é agora uma espécie de Big Mac dos sentidos, e come-se ao acaso em qualquer sítio. Como um vírus fatal, a voz de puta de luxo lobotomizada da gaja do Magnum um dia será o ar que respiramos, o erotismo uma vaga memória, palavra arcaica flutuante, esvaziada e arquivada algures no Facebook, que nem arquivo tem. Já faltou mais.

Saudades da estação CP de Aveiro da minha infância, quando os anúncios dos comboios eram cuspidos por um grunho semi-analfabeto que nem falar ao microfone sabia. Ninguém percebia o que ele dizia, que comboios chegavam ou partiam, mas pelo menos o grunho tinha corpo e alma. E provavelmente fodia bem mais e melhor que a gaja do Magnum.

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One thought on “A gaja do Magnum agora anda por Santa Apolónia

  1. voto no regresso dos grunhos a cuspir ao microfone palavras que ninguém percebe à moda dos feirantes de micro atado com fio de arame ao pescoço. obrigada por me fazeres avivar a memória. estas vozes sensuais e estes nespresso people e o “tudo muito bonito” e clean estão a dar cabo de nós (de tal forma que, se não fosse o teu post, talvez nunca mais me lembrasse das msg imperceptíveis dos bilheteiros dos caminhos-de-ferro)

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