Orgulho e vergonha na abertura de Guimarães 2012

A minha apreciação do dia de abertura da Capital Europeia da Cultura

Não podia deixar de ir; tinha outros chamamentos, mas entendi que estar tão perto e não ir seria trair os mais básicos princípios – da amizade para com vários dos efectivos obreiros e autores deste projecto, antes de mais, e do enorme orgulho que deriva de saber em primeira mão como Guimarães 2012 foi resgatado ao outrora iminente abismo por gente generosa, inteligente e vertical.

Não me arrependi de ter ido. Foi bom ver a cidade vibrante, uma população a acordar para a possibilidade de mudança, curiosa e receptiva perante o estranho, enquanto intuitivamente re-posiciona o seu próprio espaço, geográfico e afectivo, para que ele passe realmente a servir a felicidade na qual todos merecemos viver em estado contínuo. Havia verdadeira emoção nas pessoas, benevolente, tão longe da proverbial selvajaria eufórica da bola.

Comecei de tarde pela exposição de fotografia documental “A Cidade da Muralha”, patente no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, com o privilégio de ser acompanhado pelo seu comissário e designer, que me ofereceram amplas oportunidades de um olhar acrescido. Um excelente trabalho de re-posicionamento da imagem de arquivo, formalmente cumpridor para logo revelar uma dimensão lúdica imensamente gratificante. Eduardo Brito contou histórias de como tem havido visitantes da exposição que reconhecem nas fotografias os seus familiares, e mesmo uma senhora idosa que se encontrou retratada na sua infância. É assim o prenúncio de um arquivo vivo, a ressuscitar pelas mãos dos seus efectivos herdeiros, em sentido literal e patrimonial. Uma exposição quase perfeita, apenas com o senão de reservar uma sala inteira a uma projecção interactiva via iPad, no meu entender uma concessão excessiva (em termos de área concedida) à equação digital.

A exposição seguinte, Cartografias da Memória e do Quotidiano, foi novamente uma agradabilíssima surpresa. Seis artistas/ilustradores foram convidados a registar, ensaiar e comunicar sentidos a partir do dia-a-dia da cidade. O resultado é deslumbrante, na medida em que de súbito a cidade percebe que é fotogénica e cinemática para além do monumento ou do postal ilustrado. A exposição é uma proposta, antes de mais dirigida aos habitantes de Guimarães, para que re-observem os espaços que cruzam e habitam diariamente, para que reconheçam as suas histórias que complementam e alimentam as “grandes narrativas” da História e dos media. Foi precisamente neste acto de re-conhecimento que outras cidades se re-inventaram, e assim se puderam projectar. Em complemento à exposição, existem outdoors pela cidade que reforçam esse convite de inscrição colectiva do espaço. Augé would be proud, mas a exposição vai mais além dos seus “não-lugares”, entretanto semanticamente esgotados por uma apropriação da designação para fins de romanticização das chagas urbanas.

Na exposição Cartografias da Memória e do Quotidiano, nota menos favorável para o título e respectivo texto introdutório: o síndroma da escrita hermética e rebuscada em contradição directa com o brilho das obras expostas, que se explicavam a si mesmas. Porque não chamar à exposição “Mapas do Dia-a-Dia?”… Seria infinitamente mais apelativo, universal e decifrável. O design do mapa da cidade foi o outro ponto desfavorável numa exposição em tudo o resto exemplar: ignorando os mais básicos princípios de legibilidade sobre os quais assenta a própria cartografia (que ironia!), sobrepôs uma legenda pesada e fragmentada ao mapa propriamente dito, criando assim uma sopa onde a identificação dos locais se torna num exercício penoso ou até impossível.

O momento da vergonha estava marcado para as 18 horas: a cerimónia oficial de abertura do Guimarães 2012, a decorrer no pavilhão multiusos, e com entrada por convite ou aquisição prévia de bilhete. Não contesto esta filtragem, compreendo os mecanismos mediáticos e as lógicas contextuais. Passemos adiante.

Não fora o brilho das exposições, das gentes e da noite subsequente, teria regressado profundamente deprimido. A cerimónia de abertura foi, numa palavra, insultuosa.

A coisa começou bem, com a primeira apresentação pública da nova orquestra da cidade, de vocação internacional (a Fundação Orquestra Estúdio). Mas de imediato se transmutou num exercício protocolar doloroso de tão caricato. Seis autoridades, entre as quais o Presidente da República, o Primeiro Ministro e o Presidente da Comissão Europeia, esvaziam-nos gradualmente de força anímica durante a hora seguinte, por via de discursos ultra-protocolares regados de clichés, completamente isentos de qualquer afirmação tangível, afectiva ou comprovativa do seu efectivo conhecimento da realidade em causa.

Cada discurso começou com um extensíssimo e penoso rol de “Excelentíssimos Digníssimos Magníficos Doutores Presidentes”, tornando desde logo bem claro que, pela vontade dos oradores, nem por um segundo Guimarães 2012 seria ponto de partida para uma igualdade de condição, mesmo que apenas enunciada. Porque não começar um discurso com “Caros Vimaranenses, porque todos hoje somos, antes de mais, Vimaranenses”?…

Ultrapassada a barragem de saudações, cada discurso seguiu, previsível, cínico, insuportável, pelo rol de clichés das “indústrias criativas”, da “História”, da “honra”, da “inovação” e do “futuro”. Sem uma ideia, uma ruptura de um guião seguido milimetricamente há décadas, uma emoção. OK, assim são as cerimónias protocolares das altas esferas – mas precisamente porque as esferas são altas, porque estes senhores chamaram a si a soberania, teriam a possibilidade (mais: a obrigação) de transformar estes momentos em efectivos momentos de viragem na consciência dos presentes e dos que, nas televisões de Portugal e do Mundo, os terão ouvido e escrutinado. Por outras palavras: eles fazem o que querem, e -escolhem- fazer isto.

A vergonha acentuou-se pela evidência de que todos os oradores eram homens. Curiosamente, a segunda figura do Estado estava na audiência, e é uma mulher. É certo que a sua vocação protocolar não é oratória, mas outras figuras estatutárias existiriam para, na eventual indisponibilidade da Presidente da Assembleia da República, assegurar uma presença feminina no pódio. A Europa observa-nos e toma nota: Portugal continua a ser machista, e, pior, continua a não se dar conta. Na mesma linha de pensamento, e já que falamos de acto inaugural protocolar, quão importante teria sido ouvir um testemunho de um anónimo representante dos cidadãos de Guimarães! Quão importante teria sido ouvir uma criança, acto simbólico de projecção futura! Em vez deste campo de possibilidades, levámos com mais do mesmo, por parte dos actuais protagonistas do circo de poder.

Esclareço que este não é, de todo, um desabafo de conotações político-partidárias. Escolho colocar essa esfera fora destas observações, porque elas se destinam a comentar o contexto e o projecto Guimarães 2012, à parte do ruído insuportável e voraz da catástrofe mundial.

Findos os discursos, entram em cena três senhoras para levar as bandeiras protocolares. Apreciando a ironia da situação na supracitada perspectiva machista, a audiência aplaudiu-as. De facto, só faltava terem ido de bikini.

Terminado o segundo excelente momento musical por mão da Fundação Orquestra Estúdio, começa o espectáculo multimédia “Os Nossos Afetos”. Bem sei que, transmitido ao vivo pela RTP, o objecto estético destas ocasiões não pode ser vanguarda abstracta. Mas também não precisa, não deve, ser o mínimo denominador comum. Uma música new age estereotipada acompanhando corpos bamboleantes embrulhados em véus, numa suposta estilização da épica História local? Temos um património que começa a ser grande e consistente de criadores contemporâneos de projecção e reconhecimento internacional, e optam por um sucedâneo kitsch do Cirque du Soleil, ele mesmo já ultra-kitsch.

Uma meia hora depois, desabafo com um cidadão holandês na zona do bar (confesso: abandonei a coisa a meio, quando uma ninfa vaporosa esvoaçava, pendurada por uns ganchos, por cima de um herói): ele reiterava a ideia, que subscrevo, de que estes espectáculos não podem evidentemente ser herméticos, nem em termos estéticos, nem em termos semânticos. Para chegar a “todos”, têm de ser acessíveis, esteticamente próximos do consenso mainstream. Concordando com este princípio, ainda assim contra-argumento que é possível elevarmos a fasquia dentro desse território. O que vi ontem foi algo muito próximo da preguiça estética e intelectual do Tony Carreira, mas sem sua a transparência, e com um verniz de erudição de secagem rápida. Teria, muito sinceramente, preferido o Tony. E não o suporto.

O problema seguinte, e a minha última observação negativa, foi a desadequação do horário do evento seguinte. Tendo a cerimónia protocolar terminado cerca das 20h30, havia 15,000 pessoas a querer jantar antes do espectáculo dos Fura dels Baus, marcado para as 22h, e iniciado rigorosamente a essa hora. Encontrar um restaurante em Guimarães nesta noite seria sempre difícil; quando nos convidam a regressar ao centro, encontrar onde comer, esperar a comida num restaurante sobre-lotado, e rumar ao Largo do Toural para assistir ao espectáculo, a hora e meia concedida foi um erro de cálculo evitável. Ou talvez apenas o reconhecimento de que o espectáculo das 22h era primeiramente dedicado a todos os que não couberam no pavilhão multi-usos. Mesmo assim, os digníssimos que ajustassem as agendas para a cerimónia protocolar começar às 17h… Haveria uma multiplicidade de formas de conjugação de horários, para que não nos pedissem o impossível em hora e meia.

Tudo isto para dizer que cheguei tarde aos Fura. Praça a abarrotar. Vimos as coisas de longe, ecos apenas do que seria assistir à acção no centro da praça, ou mesmo “na TV”. Esta terá sido a quarta vez que vi os Fura dels Baus: dos três espectáculos anteriores, ficara-me a memória de encenações de violência, transgressão, adrenalina e provocação. Compreendera desde logo que este espectáculo seria diferente: em nome do tal “mainstream” e da própria segurança pública (a multidão, comprimida na praça e arredores, seria uma bomba suicida na eventualidade de um pânico).

Os Fura terão tido a inteligência de compreender isto mesmo, e criaram um espectáculo lento, neutro e inofensivo. No que me foi dado a ver de longe, funcionou. O fascínio da escala do Homem e do Cavalo, as projecções simbólicas, as cores e o fogo de artifício final, criaram de forma articulada o “momento mágico” que, este sim, se quer relativamente previsível (ao contrário dos tais discursos protocolares, que deviam abrir possibilidades). É um ritual de fundo, enquanto o momento é vivido como comunhão simbólica de afectos. Isso se viu em seguida, nos cafés, nos bares, nas ruas estreitas: gente a falar com desconhecidos, a improvisar formas de ocupar os espaços sobre-lotados, gente com esperança, bem-disposta, que começa a ser coisa rara. Acredito verdadeiramente que será possível que Guimarães 2012 redima muito do que o Porto 2001 deixou por cumprir, no imperativo de criar raízes e consequência para além do ano em causa. E para isso é necessário reconhecer os sucessos e apontar os erros, para que se tente ir ainda a tempo de os corrigir. Foi isso que tentei neste modesto contributo, nesta primeira hora.

Um abraço de parabéns aos autores deste primeiro momento, e toda a força do mundo para o ano extraordinário que agora começou!

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s