Not me, George.

Não gostar do Nespresso não é mania, nem tão pouco é ser retrógrado. É simultaneamente visceral, social e existencial. Passo a explicar, sem pompa:

O Nespresso é demasiado slick para o meu gosto. É clean, indolor, irreal. Não suja, não verte, não precisa de ser medido. Tem cores giras para distinguir tipos de café que no final de contas sabem ao mesmo. É marketing de exotismo, entre a infantilidade de uma caixa de lápis de cor e uma montra de perfumes.

O Nespresso abdica do ritual de fazer o café. É assim como estalar os dedos e plim, aparece. Num mundo que está a deitar tudo o que é artesanato pelo esgoto abaixo, até o processo de fazer um raio de um café começa a merecer ser candidatado a património imaterial.

O Nespresso entra na onda da pseudo-sensualidade iPhone, outro “pet hate” meu: os sentidos aprendem a deixar-se levar pelo inócuo, pelo “slick”, pelo dedinho que desliza no ecran, pela unha arranjada que levanta uma capsulazinha de Nespresso de uma caixa de tesouro. Ritual de consumismo cínico, põe-nos a todos a viver o anúncio televisivo em primeira mão. Smooth jazz genérico, sussurros lânguidos, Clooneys a piscar o olho, baby. Bolas, só queria beber um CAFÉ.

O Nespresso faz o café abdicar da sua condição universal. Tal como a Apple mudou subtil, eficaz e irreversivelmente o paradigma do software, que antes cumpria o mui louvável e inquestionável princípio de máxima versatilidade e compatibilidade entre sistemas, e agora encerra o seu software exclusivamente em iPads e iFins, o acto de tomar um café, por via do Nespresso, deixa de ser um acto social que nos aproxima, para passar a ser um filme exclusivo e narcisista de luxo. Nespresso Club, vantagens exclusivas, blá blá blá. O problema é que o povinho parece estar todo a encenar o exclusivo: ou seja, passa a ser o teatro da sofisticação, quando na verdade é do mais trivial e massificado que há.

O Nespresso convida-nos a deixar de ir ao café, onde praticamos há décadas o dever cívico de “atestar os neurónios” enquanto mandamos umas bocas com os nossos concidadãos, antes de seguir em frente. Fecha-nos sobre nós próprios: ficamos na nossa sala feng-shui a beberricar a amostrinha VIP que saiu da cápsula dourada, enquanto deslizamos os dedos pelas apps iPad e ouvimos um single acabadinho de comprar no iTunes no sistema 5.1. Life’s so cool, huh? Os tugas já são ensimesmados q.b., se até de tomar o cafezinho no café da esquina abdicamos, o que resta como cenário de quotidiano partilhado?

O Nespresso é péssimo para o ambiente. É desperdício em larga escala. Bem podem propagandear a reciclagem das cápsulas, a maioria das gentes é preguiçosa e o alumínio junta-se às lixeiras ilegais que povoarão os países sem lei. Literalmente, defecamos nos pobres que tiveram o azar de nascer no Terceiro Mundo. Não é só obra do Nespresso, mas o Nespresso ajuda.

Uma palavra final para o triste teatro das lojas em época de consumismo pavloviano, Natal à cabeça. Filas intermináveis, aberrantes. O investimento de tempo versus o retorno em tretas de cores. A loja Nespresso que abriu na Avenida da Boavista, no Porto, é agora responsável pela ocupação quase permanente de uma faixa de rodagem por gente de quatro piscas que “vai ali nun’stantinho” buscar mais uns alumínios. Nenhuma autoridade local põe fim a esta vergonha, e a Nespresso borrifando-se para o caso.

Nespresso: What Else? Everything Else But, George.

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