Chupar a Música!

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Ontem fui assistir a um concerto dos Remix Ensemble na Casa da Música. Obra de Wolfgang Mitterer, soberbamente interpretada pelos supracitados.

Um problema: uma miúda de uns 15 anos senta-se atrás de nós com o que presumo serem os avós, e resolve sacar de um chupa-chupa. Procedeu ao descasque do celofane e passou o concerto inteiro a trincar, mastigar e lamber a bola de açúcar. Acabei por me virar e chamar a rapariga à atenção, com um gesto discreto de indicador nos lábios, mas fui basicamente ignorado (“olha este!…”)

Não é uma questão de protocolo, nesse sentido a pose dos enfarpelados é-me mais insuportável: é o facto de a miúda e respectivos avós nem se darem conta de que a peça musical tem partes bastante silenciosas nas quais eu ouvia mais o ensalivar da dita cuja que os instrumentos.

Chamar-lhe-ia iliteracia acústica: a incapacidade de reconhecer por si que um concerto acústico de um ensemble erudito não é uma moshada num festival de verão onde se berra à vontade (nada contra, mas é. outra. coisa.) Depois vem o argumento “é um país livre”.

Falar-se-á de respeito, como frequentemente se fala, de fronteiras e limites, de disciplina. Mas o respeito é outra coisa. O respeito deriva ele mesmo do desafio em nome próprio de “crescer” neste mundo – que pode querer dizer uma infindade de coisas, e inclui seguramente o apurar dos sentidos. É isso que também desgosta: a ruptura progressiva dos comportamentos em tudo o que é espaço público é agressão aos outros, mas é também embrutecimento de si e em si mesmo.

Convirá ainda esclarecer que a agressão e o embrutecimento podem advir de uma aparente passividade ou da proverbial melancolia. Exemplo entre os muitos possíveis: os condutores que andam na cidade a 10 à hora, como se se passeassem à beira-mar, são eles mesmos agressivos. Impõem a sua deambulação a horas de trabalho, sobrepondo-se ao imperativo de facilitar a vida aos outros. É o “cada um por si” dissimulado de brandura. Está-se ao volante como se se estivesse no sofá lá de casa, narcotizado, a ver o Malato ou o karaoke da juventude voluntariamente vampirizada.

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