A Voz Simétrica de Paulo de Carvalho

Paulo de Carvalho é um cantor de primeira linha da História recente de Portugal.
Mas não necessariamente pelo seu reportório (a maioria do qual oscila entre o passável e o francamente sofrível), nem pela sua voz (excelente, mas refém da mediocridade desse reportório). Paulo de Carvalho é uma figura incontornável porque a sua voz serviu já por duas vezes de prenúncio a uma mudança de paradigma socio-político.

Ainda que “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, tenha ficado na memória dos portugueses como -a- tradução musical da Revolução de 1974, muitos não esquecerão que foi a balada “E Depois do Adeus” que serviu de primeira senha para essa Revolução, na Rádio Renascença, na noite de 24 para 25 de Abril.

Estamos agora em 2012, e a noite em que os Portugueses se declaram irreversivelmente divorciados da narrativa política das últimas décadas é a noite em que o Primeiro-Ministro perde fatalmente o fio à meada social comum.

A 7 de Setembro de 2012, Passos Coelho anuncia medidas de contenção financeira, as quais, não sendo necessariamente as mais duras da História deste regime, são amplamente interpretadas como um gesto de hostilidade e ruptura da já frágil situação de vastos espectros de cidadãos.

Mas Passos Coelho gerou uma outra ruptura: ignorou que a sua “personagem” (ou seja: o seu cargo, o de Primeiro-Ministro), não podia nesta precisa situação dar de imediato lugar ao indivíduo e ir tranquilamente a um concerto. É certo, o cidadão “Pedro” (que a seguir escreveu no Facebook, como que a procurar em vão confirmar a distância entre pessoa e personagem), tem direito aos seus momentos de vida familiar, de lazer e descontracção. Mas nesta noite não. Não cai bem, menos bem cai ainda porque pela mão das ubíquas câmaras de telemóvel ele foi amplamente mediatizado, vibrando em celebração musical. O papel de Primeiro-Ministro exigir-lhe-ia, em particular nessa noite, contenção e solidariedade (mesmo que simulada, se outra não existisse), e nunca -nunca- sair de casa para rir, cantar e aplaudir.

E o destino tem destas coisas: o cantor que cantou a gota de água no copo de frustração social que assim transbordou, o cantor que nessa noite Passos Coelho acompanhou, só poderia ter sido Paulo de Carvalho. E o país, atento, mudou uma vez mais o seu modelo de relação com o poder.

Sabe-se que Passos Coelho ter-se-á juntado à audiência e a Paulo de Carvalho, cantando em coro a “Nini dos meus 15 anos”. Se o tema “E Depois do Adeus” simbolizou em 1974 a promessa pujante de emancipação, a “Nini” é hoje tão somente um eco nostálgico da emancipação que ficou por se cumprir. E assim se deseja que Paulo de Carvalho, o nosso cantor mágico, tenha uma vez mais fechado uma era.

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