O sono dos anjos em hora de ponta

A semana passada apanhei um engarrafamento em hora de ponta, provocado por um carro mal parado que imobilizava uma das duas faixas de rodagem. O pessoal que queria seguir em frente (eu incluído) estava estrangulado na fila dos que iam virar à esquerda, porque na faixa da direita um carro dava os quatro piscas. Até aqui, nada de novo, já sabemos que isto sucede em toda a parte.

Quando finalmente passei pelo dito carro, o “condutor”, sentado ao volante, dormia o sono dos anjos, de boca aberta e tudo – assim à moda antiga, como os casais que dormitavam e tricotavam (e o fazem ainda, suponho?) ao Domingo à tarde à beira mar, a ouvir a bola num torpor de fim de semana. Com a única diferença de este honroso cidadão o estar a fazer no centro da cidade, a uma Sexta-feira ao fim da tarde, atrasando serenamente a vidinha de umas boas dezenas-centenas de concidadãos.

Em si, a situação é apenas uma irritação momentânea, não é nada. Argumenta-se que assim são as trivialidades do dia-a-dia, a esquecer de imediato ou inclusive a nem sequer registar na nossa consciência. Mas enquanto indício, é um episódio monumental e merecedor de um artigo em breve. Tentarei dissecar este e outros sinais de um tecido social em aparente desagregação, onde se começa a insinuar a inconsciência de que, sem o cumprimento das regras básicas da mecânica do espaço público (ou a sua averiguação individual intuitiva), o quotidiano vai-se progressivamente tornando num inferno, refém contínuo dos mais absurdos disparates individuais. Mas antes desse texto há que buscar algures (e comunicar) sinais de optimismo, se não não se aguenta.

Falta acrescentar que nem um condutor reagiu à indignidade da situação: a aparente apatia dos cidadãos perante este cortejo de surrealismos é tão ou mais preocupante que a indigência arrogante dos infractores. Tive de ser eu a acordar o belo adormecido com uma buzinadela (a cachopa jeitosa e insinuante que abraça polícias nas manifs não estava à mão para o acordar com suavidade e languidez). Ainda me deve ter insultado por lhe ter roubado tão rica soneca, suponho!…

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s