Vais prá Manif? Não t’esqueças de te borrifares com Cacharel.

Ou, como a contra-cultura se encontra raptada em parte incerta e Justin Bieber se sagrou músico de vanguarda

Vejam aqui a história: Campanha Cacharel dissimulada conquista lugar nos noticiários como se de acontecimento verídico se tratasse. Há uma longa história de embustes deste tipo, que passa por coisas como o “wal-marting across america” (googlem se não conhecerem)… E a Cacharel já está a sofrer as retaliações transitórias nas redes sociais. Tudo voltará ao mesmo nos próximos dias e ninguém se lembrará do caso.

Concordo que este tipo de campanhas é abusivo e insultuoso, e esta campanha Cacharel em particular parece partir do princípio de que somos todos uma espécie de cães pavlovianos da romantiquice. Meter a paixoneta no meio da manif de 15 de Setembro torna a coisa ainda mais repugnante, e abre as portas à intuição de que a publicidade contemporânea, nos seus jogos de realidade e ficção, não estará assim tão longe da política, hoje essencialmente reduzida a discurso mediático no que diz respeito à sua reversão junto dos cidadãos: não é construir, é apenas argumentar e contra-argumentar sobre a construção sempre adiada. E prometer a salvação lá mais para diante, depois de cumprida a travessia dos infernos. Lembra-me outras mitologias.

Esta campanha igualmente insulta, ainda que bem-educadamente, a natureza da nossa condição e do seu eco no tecido social. Os dois jovenzinhos fictícios são quase perfeitos: nomes giros-genéricos (mas não demasiado triviais, nada de Zés ou Marias), muito activistas (que modernos são, devem ter sabido da manif via facebook no iPhone) e usam Cacharel (afinal nem estamos assim tão mal, inda vai dando prós perfumitos franceses). Nunca o “Ricardo” se apaixonaria por uma “Joaquina” – com todo o respeito pelo nome e por quem o transporta, mas não é neutro q.b. para estas andanças da publicidade anódino-perversa.

Mas igualmente me sinto insultado por coisas como a “flash-mob do Miguel” (Optimus) ou o jogo de espelhos de ironia do spot “gato fedorento” (Natal MEO 2011): muita pseudo-espontaneidade (tão “boy next door”, o Miguel e a sua guitarrinha) e muito cinismo fatigado, respectivamente (ainda por cima com as mesmas caras de sempre, forçadas sobre nós até à náusea, de talento doméstico e domesticado).

Preocupam-me, quiçá mais ainda, estas campanhas, as quais, não levantando questões éticas tangíveis, se insinuam nos labirintos da higiene mental e da amnésia ideológica. Estes dois exemplos que cito, em meu ver, fazem uma versão de jardim-escola das contra-culturas (Optimus) e um apelo à “bulimia mediática” em piloto automático (MEO: estão fartos de tralha televisiva? Então comam esse mesmo enjoo!). E contra estas não existem mecanismos legais de defesa, nem sequer os inoperantes.

Sendo menos polarizantes que o caso Cacharel (mais prontamente decifrável), são provavelmente mais impactantes e permanentes precisamente por serem mais oblíquos. O universo de ficção dos anúncios tem um impacto real, como sabemos. Principalmente quando entra literalmente no espaço geográfico que habitamos e nos nossos mecanismos de interpretação da realidade e adesão social. Possivelmente menos escandalosos, estes anúncios, mas igualmente massacrantes da nossa autenticidade. Como que querendo transformar o nosso quotidiano num Disney World ininterrupto.

E assim o cantor imberbe Justin Bieber (seguramente consumidor de Cacharel) cumpriu o seu acto de vanguarda e lucidez: vomitou esta semana em palco, durante um concerto. Milhões de visionamentos no Youtube garantirão um lugar nos tops. Terá sido a bulimia da MEO?

Obrigado ao Eduardo Cintra Torres e à Rita Falcão Monteiro, cujas conversas a este respeito no FB me ajudaram a clarificar as ideias e conduziram esta reflexão à sua forma final.
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