Zombies, Júlias e Gabrielas

Trabalhava eu ontem serão dentro enquanto a nova produção da clássica telenovela Gabriela passava na televisão. Sem som, que o trabalho era relativamente digital-mecânico mas exigia concentração q.b., mas ainda assim entremeado por relances às novas caras da adaptação do livro de Jorge Amado. Já tinha visto uns minutos há umas noites, e ontem confirmei a primeira impressão. Parecem-me verdadeiros zombies se comparados com a monumentalidade do elenco da série original.

Respondia-me o meu colega Gonçalo Falcão que sem a Sónia Braga nada feito, é a mulher mais sensual que o Brasil alguma vez produziu. Mas não creio que seja só a questão da sensualidade mediatizada.

O que eu vi na Gabriela original (pressenti na infância e logo confirmei num segundo visionamento, anos mais tarde) foi todo um trabalho de incorporação de um contexto histórico. Os actores veiculavam as personagens, mas veiculavam acima de tudo um tempo, um ecossistema social, cultural, político. A verdadeira história da “Gabriela, Cravo e Canela” é a história de uma transição social e geracional, entre o paradigma fortemente religioso e hierárquico do “coronelismo” feudal e a emancipação pressentida e prometida da modernidade, da qual chegavam ecos à cidade de Ilhéus. Gabriela é uma metáfora para essa mesma modernidade, que se revela sempre antes de mais na liberdade sobre o nosso corpo.

Estas novelas clássicas em versão século XXI parecem-me monstruosas porque são só historinha. A erudição que as obras originais respiravam, isto é, a multiplicidade de níveis semânticos, foi reduzida à intriga.

O mais gritante será o caso desta Gabriela, adaptada nos anos 70 a partir de um romance extraordinário de um autor superior, agora adaptada da adaptação. Mas o mesmo se pode observar no Dancin’ Days 2012: o enredo original era o retrato de uma metrópole brasileira nos anos 70, trespassada pelo crime e pelo hedonismo que o disco-sound americano tipificava. Drag Queens de Brooklyn deram em Saturday Night Fever, que por sua vez deu em Dancin’ Days…

Havia um contínuo, uma herança de contexto, uma digestão. O Brasil de extremos e de profunda influência norte-americana, oscilante entre a pobreza e o luxo decadente. E uma vez mais, a incontornável Sónia Braga, interpretando a transformação de mulher endurecida por dez anos de cadeia em estrela de jet-set de luxo.

Agora expliquem-me como se traduz tudo isto para Lisboa em 2012: não se traduz, não é passível de tradução. A nova protagonista do Dancin’ Days, inexpressiva e inofensiva ao ponto de irritar, sai da cadeia ao fim de dez anos com a carinha laroca e os modinhos de quem acabou de sair de uma sessão no spa.

É certo que não tenho seguido estas novelas, e por isso a minha legitimidade de apreciação é parcial. O problema é que não as consigo seguir. Mesmo que tivesse disponibilidade e vontade de o fazer (não tenho nem uma nem outra), há uma rejeição visceral que me bloqueia de imediato a capacidade lhes de dar o benefício da dúvida. A samplagem que fiz chega-me para intuir que o que ali vai é pura amnésia, pura caricatura. Mas pronto, nunca fui ao Brasil, que sei eu.

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One thought on “Zombies, Júlias e Gabrielas

  1. Mesmo sem ter ido ao Brasil, sua análise é extremamente pertinente. As novelas brasileiras já tiveram seu papel em tempos onde a censura impedia a livre expressão sobre questões sociais complexas. Nesse espaço, a obra de Jorge Amado, Gilberto Braga e Dias Gomes foram de grande contributo. Agora, melhor mesmo esquece-las. Cumprem o perverso (des)serviço de mostrar – pedagógica e detalhadamente – a banalização do humano como forma de vida instituída. A representação da mulher brasileira é criminosa pelos esteriótipos de vulgaridade e leviandade. A língua pátria é assassinada diariamente em textos imbecis e permeado de clichês. Escola para formação de medíocres e marginais. Não merece sequer o benefício da dúvida.

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