±: A Polarização da Ambiguidade (2006)

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O presente texto deriva de uma palestra proferida a 6 de Dezembro de 2006, no âmbito de um ciclo dedicado à Arte Pública em Portugal ocorrido na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A solicitação do desenvolvimento de um discurso em redor de intervenções clandestinas encontrou no então recente projecto de intervenção urbana “±” o contexto ideal para uma reflexão sobre o modo como o espaço público português é, ele mesmo, um espaço clandestino.

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Numa breve e necessária contextualização, o projecto “±” nasce em 2005, como projecto curricular de investigação por um aluno finalista da licenciatura em Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Miguel Januário, por mim  orientado. Mas seria um equívoco considerá-lo estritamente como projecto académico, mesmo nesta sua configuração original. O contexto curricular funcionou em grande parte como oportunidade de estudo aprofundado e fenomenológico de um conjunto de questões sociais e culturais que o aluno em causa ponderava de modo mais vasto, sendo ainda uma oportunidade de aplicação das suas práticas associadas à cultura do graffiti num projecto de maior dimensão e longevidade. No entanto o projecto parece derivar em última instância de uma forte vontade de mudança de contextos socio-culturais, reafirmando insistentemente a possibilidade de criação e aplicação local de um modelo de intervenção, para já nada português, de “personal politics”.

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O espaço público português é, em grande parte e nos últimos trinta anos, auto-regulado e auto-regulador, por oposição a outros espaços públicos que hoje florescem nos grandes centros urbanos internacionais, fortemente regulados por entidades e interesses privados, e consequentemente potenciadores de uma efectiva clandestinidade por ruptura de realidades encenadas e patrocinadas. Estas realizades publico-privadas produzem inclusivamente os seus próprios reportórios transgressivos como forma de integração total num universo simultaneamente real e simulado, assegurando a manutenção de um imaginário fortemente polarizado e a construção de narrativas ficcionais que acompanham o dia-a-dia do cidadão comum.

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Em contraste com este cenário que, advindo dos grandes centros urbanos (as metrópoles norte-americanas, Londres, Tóquio, São Paulo), cativa inevitavelmente a periferia, no contexto português temos a falência do espaço público, marcado pela ausência de planeamento geral, pelo abandono da sua geografia e história, pelo distanciamento entre as vontades das entidades protagonistas e as efectivas ambições da população, e pela inexistência de identidades agregadoras dessa mesma população. Por outro lado, encontramos uma tradição endémica de tolerância e “laissez-faire”, onde convergem um temperamento historicamente fluemático e uma forte, embora quase sempre inconsequente, convicção relativa a liberdades de expressão individual, em grande parte herdada da revolução de 1974, e algo paralela ao Maio de 1968 parisiense. Assim se torna ambíguo falar de intervenção clandestina no espaço público, quando o espaço público português surge caótico e ingovernável, a sua geografia discretamente polarizada entre arrogância e frustração. Essa mesma ingovernabilidade é atestada neste projecto “±”, nunca tendo o seu autor sido alvo de qualquer confronto por parte das autoridades, mesmo quando estas assistiram a intervenções suas, e apesar da ubiquidade e dimensão dessas mesmas intervenções. Deste modo, logo à partida se reconhece que o projecto “±” foi, na sua fase de ubiquidade, uma verdadeira testagem dos limites da intervenção individual em espaços públicos, limites esses que aparentemente permanecem por identificar, de tal forma são flexíveis.

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A óptica da ambiguidade está, evidentemente, presente na própria escolha do ícone agregador desta intervenção. O símbolo matemático “±” representa a ideia de aproximação e tolerância, vendo neste contexto o seu significado expandido mediante a ideia de coexistência de opostos. Mas mais decisivo que a descodificação inequívoca do ícone em causa, será o reconhecimento de que se trata de um ícone onde quase tudo pode ser projectado, e foi precisamente essa a razão que antes de mais fundamentou a sua adopção.

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Para além desta dimensão projectiva, em que o transeunte é convidado a deambular mentalmente perante um enigma iconográfico, encontramos duas outras dimensões igualmente determinantes: por um lado, a dimensão “vírica” do projecto, fortemente associável a estratégias publicitárias contemporâneas, que colocam determinados reportórios no imaginário colectivo através de uma sobre-abundância de referências e suportes, fazendo ainda reverter a seu favor o carácter enigmático que se disseminará enquanto tema de conversas; por outro lado, a dimensão associada ao graffiti hip-hop, que há três décadas se vem alimentando de processos e objectivos análogos (ubiquidade, transgressão, utopia), e que, ironicamente, a própria publicidade tem vindo a mimetizar, quer formal, quer estruturalmente. Julian Stallabrass, aliás, afirma precisamente que o graffiti e a publicidade aspiram hoje a um mesmo fim: a omnipresença do nome enquanto marca, desprovido de objecto, propósito ou conteúdo. A este conceito, parece-me oportuno acrescentar a ideia de que a marca desprovida de objecto ou aparente propósito ambiciona apresentar-se num “estado de virgindade”, desse modo mais propício a um “enamoramento” por parte do transeunte/utilizador/consumidor. Esse estado revela-se de uma enorme maleabilidade semântica, conforme atestado em muitas das intervenções deste projecto, garantindo assim uma outra dimensão que é a do enraizamento junto dos nossos referentes sociais e culturais mais comuns.

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Após uma primeira fase que poderia apelidar de “ubiquidade silenciosa”, o projecto “mais menos” tem-se desenvolvido segundo modelos mais complexos: pela disseminação internacional, à semelhança de outros projectos estruturalmente análogos como os “Space Invaders”, “André the Giant” ou “Banksy”, disseminação esta que permite a testagem de leituras dramaticamente distintas a partir do material original; e pela inclusão de níveis de comunicação agora já bem menos ambíguos, frases quasi-sloganísticas que desenvolvem um discurso de intervenção social, convites a que o cidadão individual sinta em si o poder para fazer a diferença no contexto social em que se insere.

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Será ainda de salientar a forma como os media assinalaram a existência deste projecto, atribuindo-lhe um outro espaço de operação que tem revertido, ele próprio, a favor do reportório original, bem como a existência de propostas de integração do seu reportório icónico e simbólico em espaços de comunicação oficial, como seja a decoração de fachadas. Em ambos os casos, este projecto acompanha a tendência de integração dos seus reportórios em contextos progressivamente consensuais, à semelhança do que sucede com os já referidos projectos de intervenção urbana – Banksy e Giant – que recebem encomendas para criação de capas de discos, edição de monografias, produção de videos, etc.

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Será ainda importante assinalar uma outra frente de trabalho do projecto, desconhecida do grande público porque desenvolvida precisamente sem expressão pública, mas que será a dimensão verdadeiramente determinante para uma real validação do mesmo. Trata-se do desenvolvimento de trabalho de campo sobre a experiência fenomenológica de intervenção pública, no qual o autor tem vindo a recolher e interpretar dados relativos à percepção que os transeuntes têm deste projecto. Esta vertente do trabalho atesta a seriedade contida no mesmo, testemunhando uma vontade de sintonia com a realidade em que se insere, à margem de modelos de imposição que imperam e permanecem de modo insistente na esfera “oficial” de operação sobre o espaço público.

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E aqui talvez se possa, finalmente, reconhecer uma dimensão inequívoca de clandestinidade, ironicamente exemplar perante o nosso espaço público falido: o modo clandestino, porque discreto e não oficial, como o projecto “mais menos” se tem vindo insistentemente a dedicar a uma auscultação e exposição de desejos, vontades e necessidades dos indivíduos, em total contraste com o modo nada discreto e frequentemente impune como os mecanismos oficiais e institucionais têm vindo a ignorar esses mesmos desejos, vontades e necessidades. Não se trata de ceder a visões circunstanciais ou infundadas por via de um qualquer populismo avulso, trata-se da construção de espaços de consenso e debate – geográficos, mentais, afectivos. Estes sim, abandonarão um dia a sua ficção mediática autofágica, e serão um dia verdadeiramente públicos, como nunca o foram.

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Imagens documentais pertencentes ao projecto ±, com excepção da primeira (HA).

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