Escurinho

2010

Sobre o dirigente sindical que no Domingo resolveu, durante um discurso público, chamar “escurinho” ao avaliador do FMI. Várias vozes se levantaram a clamar racismo. O próprio, e uns outros tantos que deviam saber melhor, basicamente retorquiram: “atão mas é o que ele é: escurinho!”…

Brilhante. Coloquem uma voz a la Rueff (poupem-me) nesta declaração e está feito um sketch humorístico-boçal de primeira.

Curiosamente, não me parece que seja uma questão de racismo, mas sou da opinião de que há efectivamente um problema nas suas declarações. Problema de nível de discurso compatível com o foro público. É o equivalente a uma figura pública chamar “caixa de óculos” ou “dentolas” ou “louraça” a alguém durante um debate de prós e contras ou equivalente: seria uma chacota, mas seria pelo menos mais frontal.

Imaginamos poder-se chamar “entravadinho” ao Wolfgang Schäuble?… Evidentemente que não: ponto final, impensável, assunto encerrado. Tem a ver com a sua dimensão física em particular? Não devia ter. Com o tom jocoso? Não só. Numa sociedade madura, a integridade do indivíduo, na sua única formulação ontológica e narrativa da diversidade humana, é inviolável: logo, é um não-assunto.

Os atributos físicos de quem quer que seja são irrelevantes quando se discute a viabilidade financeira de um país. Referi-los é sinal de falta de discernimento da parte de quem os refere. É apenas isto que está em questão, e que o próprio pareceu não compreender.

Escurinho. Palavra paternalista, no pressuposto tácito de um “desvio à norma” (arrepio). Palavra mansa, esquivo-inofensiva, com laivos de obliquidade, assim como quem quer provocar a medo. Palavra infantil, a descrever mais a pobreza de ideias do nosso forum social do que quem quer que seja em particular. A metáfora dos Reis Magos, então, é de fugir. É portanto nestes termos, com alegorias imberbes, circulares e previsíveis, que se ilustra o drama do assalto em curso a nível mundial.

Ou seja, resta saber se o dirigente sindical estaria realmente a dissecar o que quer que fosse, ou se se tratava de mais teatro mediático. Mas por aí já não vou; hoje, pelo menos.

Escurinho é o nosso espaço de interlocução mútua: sem consequência, sem inteligência, sem lucidez.

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