O Regresso

florindaw

A recente campanha do Continente, centrada na personagem “Sra. D. Florinda de Matosinhos”, é extraordinária na sua transparência. Diz a Sra. D. Florinda que no seu tempo não havia nada, trabalhava-se muito, comia-se pouco… Sra. D. Florinda, testemunha e filósofa do “seu tempo”, mas a Sra. D. Florinda não tem nem teve tempo: é uma personagem, um avatar onde tudo é projectável. E o que se projecta neste caso?

Com a Sra. D. Florinda, o Continente convida-nos a encontrar conforto para os tempos de austeridade que correm, através do regresso à “Mãe” – a “Mãe” aqui como arquétipo ancestral de um Lar no Portugal pobrezinho, honrado e resignado, reconciliado com a sua condição. Ou seja, perante o abismo da incógnita socio-económica que se adensa exponencialmente por mão de um “Pai” severo e castigador (o governante), o Continente convida-nos a revisitar um passado mítico no qual o nosso futuro de empobrecimento se consola numa familiaridade semântica, num embalo materno reverberado dos tempos em que “tudo era mais simples”.

O extraordinário paradoxo desta campanha é o facto de ela propor que esse regresso à simplicidade das coisas ocorra por via da continuidade do modelo da catedral do consumo. Um acto de ruptura lógica: antigamente não havia nada, agora há tudo (no Continente), mas antigamente éramos mais felizes e sabíamos decifrar o mundo. Com o Continente podemos voltar a ser felizes “como antigamente”, e simultaneamente continuar a “ter tudo”.

O momento-chave do anúncio é o momento em que a Sra. D. Florinda ri, subitamente e aparentemente a despropósito, depois de enunciar as suas recordações do tal antigamente: como que a admitir o seu próprio ficcionar, a conversão de memória histórica em cliché de marketing.

A Sra. D. Florinda até tem apanhados das filmagens do anúncio, no canal youtube do Continente. Vejam como ela existe de carne e osso e conta histórias tão castiças, como este passado aconteceu, como podemos regressar a ele, agora de mãos cheias. Com o Continente, evidentemente: o infante na moldura somos nós, e o Continente já lá estava, antes mesmo de existir.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s