There are Elephants in the Room

Ensaio para a publicação “Que Cidade é Esta? Que Cidade pode ser Esta?”, documento de balanço transversal de dois anos de Manobras no Porto, ciclo de acções criativas de cidadania no Porto entre 2011 e 2012. PDF completo aqui.

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There are Elephants in the Room

Há tanto ainda por desbravar, reconhecer, acolher: o Manobras acabou por se consumar numa espécie de euforia prismática e primordial, de uma espontaneidade auto-contemplativa algo ingénua, tacteante, de sede de verdade colectiva estilhaçada e semeada por via da mediação e da trans-acção. Ora, essa verdade é simultaneamente a utopia dos cidadãos (desejada, desejável), e a perplexidade da sua própria nudez, incómoda, constrangida ou insuportável por entre fricção estatutária e ablação narrativa.

O que somos quando somos convidados a comunicar-nos?
De que abdicamos perante a nossa própria idealização?
Como mantemos a integridade da nossa confissão por entre a sua própria encenação?

Como mecanismo de ficcionamento do quotidiano, a encenação reforça a manutenção incólume desse mesmo quotidiano. Ou seja, corre o risco de dele se descolar, ao ponto de a ele já não reportar.

Num mundo ideal não haveria gente desta. Num mundo ideal haveria respeitinho. Num mundo ideal todos nos conheceríamos e ajudaríamos e celebraríamos e assim nos regeneraríamos. Cidades sujas, atravessadas por gente suspeita (nós mesmos), gente que suspeita (nós mesmos), que se vigia e se julga e se opina e se ignora e se exclui. Nós mesmos. Dependência mútua, dissimulada, culpada, remordida, feita teatro de virtude, teatro que tacitamente se aceita substituir-se à crueza das coisas, ornamentando-a, complicando-a, dificultando-a, neutralizando-a. Buracos negros de sentido, vetando o sentido do que os rodeia. Humildade, rubor, diáspora enraizada, dócil, resignada. É assim, pronto.

A primeira condição da metrópole é a emancipação do corpo. Expressão, mutação, auto-determinação, prazer, exibição, camuflagem, anonimato: a metrópole viabiliza a reconciliação contínua da descontinuidade, incentivando em simultâneo a fertilidade dessa mesma descontinuidade. Somos todos mais do que a “vidinha”, temos definitivamente de o ser: a grandeza do indivíduo pressupõe a dúvida sobre si mesmo, o restante é ausência de vontade de crescer.

Um anjo japonês chega via Londres, protagonista improvável, protagonista do improvável: canta o Fado não-patrimoniado, interpreta, entrevista, desenha, abraça, consola a nossa vontade não-confessada de exotismo. Adere a tudo, sem reserva nem condição. Time out, out of time: parte ele mesmo etéreo, inconsolável, transformado, exilado da cidade que o seduziu e embalou, nec plus ultra de um “outro” nunca inteiramente decifrável, porque o “outro” nunca o é.

E no entanto a cidade tarda a incluir os seus. Lojas de imigrantes, tribos incomunicantes, profissões nocturnas, erotização enxovalhada, compulsões químicas e o culto tácito do discurso circular e da mediania como mecanismo potente de paralisia da acção. O lar como prisão, ainda, e a chamada de valor acrescentado da astróloga da TV como alternativa pornográfica ao sedativo. Entre a severidade, a finalidade da sua exclusão narrativa, e o recurso tão prevalente, sabemo-lo, à sua promessa de redenção transitória. Pequenas alegrias, micro-rupturas, por aí nos veremos em transacções de bens, serviços, palavras, lágrimas, actos e sussurros… Entre o sigilo e a teatralização do que, no final, nos define. Dramas mansos, vontade proferida de os transcender, na ansiedade do vácuo que esse transcender desvendaria.

No pressuposto, na evidência de que o Manobras é um trabalho a longo prazo, perpetuamente renovado e inesgotável, a marca relativizada, as manobras devolvidas à sua efectiva paternidade.
No pressuposto, na evidência de que o Manobras não é mais do que o que já se fazia e faz, agora dotado da consciência da grandeza da sua própria promessa e possibilidade.
No pressuposto, na evidência de que o Manobras só se cumprirá no dia em que as presenças inenarradas, espectros de inquietação, passarem a ter um nome e a reconhecer o seu propósito. E o primeiro propósito será a ausência consciente, deliberada e corajosa de zonas de exclusão, e o segundo a devolução colectiva e incondicional da sua dignidade.

Esse não será o dia em que o Manobras finalizará a sua missão. Pelo contrário: será o dia em que iniciará o efectivo cumprimento do seu desígnio. Por agora, ensaiou-se a possibilidade intuitiva e transversal de uma utopia. O que, em dois anos, é Obra.

Imagem: draft (HA) de composição destinada ao livro, não utilizada. Fotografias originais do projecto “Documentar o Manobras”.
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