O Vasto Universo do Impirateável

 Artigo para a publicação GUME, Porto, Maio de 2010

Há três coisas que se me oferece dizer sobre a questão actual do copyright versus pirataria, e nenhuma delas tem particularmente a ver com ética, processos de tribunal, propriedade intelectual, ou mesmo fair use. É minha convicção que o debate tem sido essencialmente ruído, pelo enfoque em aspectos legais que acabam por se sobrepor às verdadeiras questões que é urgente conhecer e dissecar de forma participada. E estas questões têm essencialmente a ver com a falência do modelo tradicional de entretenimento de massas: o problema não está nos downloads ilegais do Avatar ou do Michael Jackson, mas sim no facto de o futuro cada vez mais remeter futuros Avatars e Michael Jacksons dos seus laboratórios de origem directamente para o refugo.

 

1. A literacia mediática e a sofisticação tecnológica continuarão a crescer exponencialmente.

Mais e melhores músicos, mais e melhores realizadores, mais e melhores prosumers – e grande parte deles crescentemente interessada em explorar modelos de produção e consumo em redor da filosofia Creative Commons. O texto fundador “The financial advantages of anti-copyright”, do colectivo Critical Art Ensemble, explica muita coisa – e tem já mais de 10 anos; deveria ser leitura obrigatória nas escolas, empresas e instituições. Procurem na internet, é gratuito.

 

2. O argumento, uniformemente veiculado, segundo o qual o livre acesso a conteúdos online prejudica as vendas de produtos é, no mínimo, questionável. 

Em finais de 2008, os comediantes britânicos Monty Python criaram um canal YouTube no qual disponibilizaram a totalidade da sua obra para visionamento livre e gratuito. Cito:

For 3 years you YouTubers have been ripping us off, taking tens of thousands of our videos and putting them on YouTube. Now the tables are turned. It’s time for us to take matters into our own hands. We know who you are, we know where you live and we could come after you in ways too horrible to tell. But being the extraordinarily nice chaps we are, we’ve figured a better way to get our own back: We’ve launched our own Monty Python channel on YouTube. No more of those crap quality videos you’ve been posting. We’re giving you the real thing — high quality videos delivered straight from our vault. What’s more, we’re taking our most viewed clips and uploading brand new high quality versions. And what’s even more, we’re letting you see absolutely everything for free. So there! But we want something in return. None of your driveling, mindless comments. Instead, we want you to click on the links, buy our movies & TV shows and soften our pain and disgust at being ripped off all these years.”

O resultado? As vendas de DVDs Monty Python cresceram uns inacreditáveis 23,000%.

É evidentemente impossível fazer deste episódio um axioma; neste caso particular, os meios digitais terão permitido a ressurreição de um sitcom britânico face a uma nova geração de consumidores, terão essencialmente insuflado os velhinhos Monty Python de uma aura “cool”. Mas independentemente de este ser ou não um modus operandi infinitamente replicável (e não o será certamente), o episódio Monty Python – YouTube serve antes de mais como refutação da linearidade e inevitabilidade da equação “mais acesso online = menos vendas”. O problema é que estamos com dificuldades de lidar com a ideia de que o universo online não se rege pelas leis da física. Para além do mais, o ser humano é fetichista por natureza: gosta de ter objectos, coisas com peso, medida e bonus tracks.

Falando em velhinhos, espreitem as comunidades sharity, que se dedicam nos dias que correm a desenterrar, digitalizar e partilhar vinil antigo nunca reeditado em CD. E, já agora, não lhe chamem pirataria: chamem-lhe antes serviço participativo de preservação cultural.

 

3. Mas nem só de Monty Python vive a internet. O problema reside também no facto de vivermos ainda rodeados de construções mediáticas cujo modelo, ele próprio, se encontra em vias de extinção – e que, como qualquer espécie ameaçada, lutam agressivamente pela sobrevivência.

Madonna, Britney, Lady Gaga são dinossauros etéreos, personagens, construções, máquinas calibradas para uma mecânica de sucesso que já não perdurará enquanto fórmula. São a última casta de um modelo de música popular que se iniciou nos anos 60, fortemente enraizado na cultura de consumo, e que agora é ultrapassado pelas culturas horizontais remix, grime, dubstep. Cada super-estrela cuspida para as massas em 2010 nasce velha, uncool, equivocada: as massas cada vez menos quererão saber de super-produções, antes deixarão de ser massas, percorrendo encruzilhadas mutantes de autenticidade: “Caudas longas”, como lhes chama Chris Anderson.

Apresentei uma comunicação num simpósio em Barcelos no dia 10 de Maio de 2010, e ao lado de um slide dos Sex Pistols recebido em silêncio, um slide da Katyzinha arrancou aplausos espontâneos e entusiasmados da audiência. Isto mesmo apesar de o Punk ter sido antes de mais o momento em que a filosofia D.I.Y. se emancipou e projectou no universo pop. Claro está, o que restou do Punk foram imagens de cristas verdes e putos mal-educados, mas a filosofia passou incólume e vinga agora pelos subúrbios das cidades portuguesas, entre histórias de amor adolescente, salas de aula em caos – e a condenação sumária das sapatilhas All-Stars… A experiência emotiva que existia num novo single dos Beatles está agora no frisson de um quotidiano que vemos continuamente mediatizado, na vertigem magnética de nós próprios mediatizarmos incessantemente o nosso quotidiano e o vermos ascender ao estatuto de ficção colectiva. Juntem à Katyzinha o Star Wars Kid, o Chris Crocker, a Sónia do Fala Sónia, o Cute Laughing Baby, o cantor russo dos anos 60 e outros quantos, multipliquem-nos pela média de remixes de que cada um deles é objecto… Madonna? Who´s that girl?…

Poderemos argumentar que, se a Katyzinha for efectivamente a imagem do futuro, o virtuosismo, a dimensão estética e a tal boa educação estão pelas ruas da amargura: no entanto, de boa educação não podemos exactamente falar quando Amy Winehouse ou Liam Gallagher abrem a boca; e se profundidade, complexidade e inovação são aquilo a que ambicionamos, não será concerteza Lady Gaga a providenciá-los… Mais depressa os encontraremos nas centenas de netlabels especializadas em estilos musicais tão híbridos, tão out there, que nem nome têm, e provavelmente nem o virão a ter. E que, claro, disponibilizam a totalidade ou parte substancial dos seus catálogos de forma gratuita.

Por outro lado, não seria justo remeter sumariamente o fenómeno Katyzinha para o caixote do lixo de uma cultura decadente: 7,000 Facebook fans can´t be wrong, para citar livremente um slogan Presleyano já museificado. Aí a nossa literacia mediática acrescida terá uma missão fulcral de decifração, antes de mais reconhecendo que o exercício de descolagem entre pessoa e personagem são agora factos do dia-a-dia, não mais reservados para um panteão de construções culturais supostamente universais, e que, independentemente da nossa vontade, esse fosso entre pessoa e personagem faz agora parte do nosso ADN.

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