Rituais de impunidade

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Foto no centro de um engarrafamento em fase de resolução, onde passei alegremente os primeiros quinze minutos do dia de trabalho, por entre um coro de buzinas e gesticulações. Acusticamente e coreograficamente foi interessante, mas tinha 30 alunos à espera.

Camião de descargas MINIPREÇO mal parado: em segunda fila, ao lado de um carro estacionado em zona de estacionamento proibido. Em hora de ponta. Todos os dias. Em frente a um externato onde, simultaneamente, os pais entregam os filhotes em quatro piscas. Todos os dias. Num cruzamento. No centro da cidade. Todos os dias. “No pasa nada”. A gerência do supermercado, nem vê-la: a lei permite descargas a estas lindas horas e já está, os outros que se amanhem. O povinho há-de ir comprar Super Bock na mesma, e a rodos, está em saldo. Deixa os quatro piscas em cima do passeio e enche a mala de bejecas. Em zona mais chique da cidade não são bejecas, são boutiques de nespressos, plástico caríssimo com sabor (?) a café e cores giras e George Clooneys… os quatro piscas e a faixa perpetuamente engarrafada são iguais.

Impressiona-me quer o comodismo de quem não quer dar um passo que seja e tem de pôr o carro à portinha, quer o ar de total serenidade que vai nas caras dos infractores. É uma sensação de que se estão totalmente nas tintas para as necessidades e os desesperos alheios. O que diz bem do nosso tecido social: cambada de cidadãos sem a noção de que espaço público implica negociar as nossas necessidades com as dos restantes. Não, é uma selva de imposições individuais passivo-agressivas.

Multas nem vê-las: que fez, que faz a polícia de trânsito para acabar com este ritual impune e perpétuo desta cadeia de supermercados? A justiça devia ser um conceito enraizado no quotidiano, não propriedade de fiscais ou tribunais. Devia vir de dentro de cada um. A justiça não funciona, antes de mais, porque o cidadão comum não a reconhece nem a pratica – e atrevo-me a dizer que não a pratica porque não a reconhece: vê impunidade acima, sente-se igualmente no direito de ser impune. Quando estes atropelos partem de indivíduos, podemos culpar o carácter; quando partem de empresas, revolta-nos a agressão tácita sedimentada. Acima deste patamar, como sabemos, passa a ser pura obscenidade.

Buzinadelas, crispação, minutos x pessoas x dias x casos análogos: horas, horas, horas, dias, semanas, meses de trabalho deitados fora por esse país fora. Povo resignado, remordido, sem ferramentas de auto-regulação. O tal “país à deriva” também é isto: se calhar até é mais isto. E a culpa tanto é dos que estão lá em cima, como nossa, que os reproduzimos à nossa escala.  E ao reproduzirmos, perdemos a legitimidade de os denunciar.

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Obrigado ao Pedro Cunha, Rui Penha e Leonardo Pereira pela discussão online que permitiu divagações mais expandidas.
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