Os cotas têm História a mais!

jovemw

Jovenzinha dirigente académica afirma, em debate da RTP, que o problema das praxes está nas cabeças dos mais velhos, que associam coisas antigas aos belos rituais contemporâneos, os quais não têm nada a ver com nada, são só giros e pronto.

Minha menina, o associar as praxes a tradições de outros tempos chama-se História, e é uma disciplina que talvez lhe fizesse algum jeito, abrindo-lhe os olhinhos pueris à densidade temporal dos fenómenos sociais e antropológicos que a própria menina encarna.

Mas não. Nos dias que correm, o mote é a amnésia, é a acção inconsciente da sua própria metáfora, expurgada da sua mitologia, cuspindo sobre a sua consequência: desbunda deserdada, desorientada e desonrada.

Assusta-me a determinação estampada na expressão de quem afirma orgulhosamente “não querer saber”. E que, ao fingir argumentar, o melhor que consegue é chutar aleatoriamente para a frente (“o pessoal diverte-se”) ou assobiar para o lado (“também há praxes no mundo do jornalismo”). Assusta-me a determinação estampada do dirigente académico que se lhe seguiu no debate, repreendendo grosseiramente o Professor de Psicologia sentado à sua frente, por este não se submeter ao seu ponto de vista (que não cheguei a entender, devo ter História a mais no cérebro): “Aquilo que eu gostava que compreendesse de uma vez por todas…”. O pressuposto de que estamos certos, e os outros, obviamente equivocados ou mal informados, têm tão somente o dever de se vergar à evidência intrínseca da nossa razão, uma vez na nossa iluminada presença. Assusta-me a incapacidade de compreender um debate como um convite à dinâmica de modos de ver o mundo. São as elites que temos, pobres de nós.

Começo, perversamente, a concordar. Quem sabe se o problema não são as praxes: poderá o problema ser um modelo de sociedade capaz de gerar gente que vem orgulhosamente a público passar um arrogante atestado de caducidade a quem se atreve a invocar o passado? E que, em troca, nem é capaz de traduzir as ideias num simples raciocínio lógico, com princípio, meio e fim? Quem sabe se as praxes não serão tão somente o que podem e sabem?

Adenda.

Recebi hoje, ao longo do dia, várias opiniões a respeito deste breve apontamento. Pese embora aflorar tangencialmente a questão das praxes, curiosamente a esmagadora maioria dos comentários, favoráveis e desfavoráveis, deslocava na quase totalidade o enfoque para as ditas. Eu falava essencialmente da História e da sua ausência nos dias que correm – e das repercussões dessa ausência num modelo de sociedade órfão de referências – mais ainda, órfão aparentemente convicto. Falava ainda do que me parece fundamental em qualquer interlocução: na ausência de clareza, parece-me importante remetermos a sua causa para a nossa eloquência, e não para a capacidade de compreensão do interlocutor. É cortesia, subtil mas decisiva.

Por outro lado, existe um ponto fundamental, quiçá não devidamente clarificado no escrito: nada me move, evidentemente, contra estas pessoas em particular. Não as conheço, e respeito desde logo e por princípio, o seu carácter e integridade. Falo sim de síndromas de contemporaneidade, que considero ilustrados pelas situações ocorridas no debate. Por outro lado, quem vemos na televisão são as personagens que a televisão cria a seu bel prazer – sei aliás (até por experiência própria) que o poder mediático da máquina televisiva tende a produzir moldagens em directo, e sei que não é fácil a eloquência nestas circunstâncias. A estas personagens me reporto, por uma questão de justiça, sem prejuízo das pessoas que as encarnaram no exercício televisivo. Por estes motivos revejo igualmente a imagem, de modo a focá-la no acto mediático, e não na protagonista.

Que tudo isto fique claro, na medida da minha (desejada) eloquência e não da compreensão de quem lê – que essa, por uma questão de princípio, a quem lê pertence, e transcender-nos-á sempre.

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