Português Evian

portevi Hoje as redes sociais andaram exaltadas com esta história sobre um professor no Luxemburgo que proibiu os estudantes de falarem português na aula.

Confesso algum sentimento de enfado com a notícia: sintoma menor de algo bem mais sinistro. Em Portugal também se proibiu o português… neste caso, escrito. Criaram uma “língua por decreto”, um pântano imune à etimologia, à geografia, à fonética e ao que essa fonética transporta do carácter de um povo, inclusive a celebração das variações locais, portadoras de uma História própria, e os seus cruzamentos ancestrais com outras línguas. Meteram-nos esta “língua por decreto” à força por via institucional, algorítmica e supostamente inevitável.

Desacordês urtigáfico, consta que se chama. Ou escreve. Algo assim. É fresco, moderno, muito geoestratégico e tal. Um chptáculo. A mim faz imensa comichão.

George Orwell e Franco Berardi são bons pontos de partida: ambos dissertam e profetizam de forma lúcida sobre a relação entre totalitarismo autofágico e o imperativo deste em controlar a linguagem.

É a substituição do rio que jorra pelo spa gourmet, exclusivo, cínico, destituído de alma por entre a promessa de exaltação dos sentidos. Espantam-se por a Nestlé querer retirar a água da lista de bens universalmente acessíveis? É o mesmo: água privatizada, língua por decreto. Português Evian.

E atenção: é evidente que uma língua tem de ser regulada, sob pena de valer tudo. Sim, há uma escrita que se ensina, uma gramática a aprender, uma fonética que se articula com estas. Mas elas crescem por si, transformam-se por si e entre si. Regular é observar as transformações, é inscrevê-las, é reconhecer o ponto em que se enraizam numa dada cultura, em que o Tempo e a História as legitimam. O que regular não é, seguramente, é decretar, enraizar por via de expediente.

Deixem lá o profe, que devia ter acordado mal disposto: falem mas é dos que nos retiraram, por despacho superior, a língua viva a que temos direito. Reinado de tecnocracia, hubris sem limite, ofensa contínua aos desígnios que nos transcendem – e portanto nos congregam.

Os impostos sorvidos pelos casinos da especulação, côdeas de reforma feitas lotaria de carros topo de gama, abolição dos feriados herdeiros de rituais ancestrais, um léxico secular esventrado em reunião de executivos. A ambição determinista de uma língua acima dos seus múltiplos contextos é uma enorme aberração: virá o dia em que atacarão os sotaques em nome de uma suposta eficiência, que nos ultrapassa e esmaga. Acordo fonético: a ideia há-de deixar de parecer estranha. Ou, quem sabe, antes virá a Nemesis de toda esta brincadeira. Ochalá.

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