“Na vanguarda da técnica”

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A publicidade, dizem-nos, é a arte de construir uma versão sedutora da realidade, estudada e calculada ao milímetro. Vozes sussurrantes, caras felizes, pores-do-sol, câmaras lentas, coldplay aos berros. Na net há pop-ups com anúncios de férias de sonho, carros de sonho, nespressos exóticos. O site do Jornal de Notícias não foge à regra e apresenta desde há uns tempos um anúncio da Audi.

O anúncio da Audi aparece cortando por uma primeira página simulada (ou seja, não é a página de notícias do dia), que, em jeito de efeito especial digital, se abre qual porta do quotidiano para dar lugar à visão-aparição do carro que vai mudar a nossa vida: literal e simbolicamente, o Audi irrompe e transcende a malha noticiosa.

Mas é aqui que se estabelece um segundo nível de leitura, perverso e perturbador. Os digníssimos executantes deste truque online de “abertura da página” (que não os executantes do spot da Audi, suponho) não se deram conta de que o título principal do jornal simulado é “Mulher morta pelo marido em Setúbal”? Onde está então a atenção ao detalhe, tão característica da publicidade? Ou, mais bizarro, fará o título parte de algum exercício de inter-textualidade que me escapa?…

A pedagogia deste tipo de obliquidades semânticas é um imperativo, argumento. Não para que terminemos com um mundo mediático ainda mais ridiculamente asséptico, mas porque, sendo uma primeira página de jornal simulada para fins de anúncio, presumo que a notícia do assassinato da pobre mulher foi manchete num passado não muito distante, e esta apropriação macabra da notícia para um truque publicitário revela ou inconsciência, ou cegueira semiótica, ou um profundo mau gosto. E, imagino, será má para as vendas do Audi?

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