No fundo do poço está um “pato”.

patodeautarcas

E pronto, chegámos ao dia que imaginava não tardar: o Dia dos PATOS.

A língua não é um código de programação que se introduz na máquina: é um consenso vivo entre entes comunicantes num determinado contexto. Vive e evolui numa dinâmica entre fonética e ortografia, ambos portadores de características que vão muito além da simples codificação; a língua expressa o temperamento de quem a fala, e transporta as muitas formas intuitivas, destiladas, como a comunicação se vai apurando. A fonética de uma região dita as necessidades de um modo de escrever. Esventrar a escrita é deixar o cantar das palavras órfão.

Ambicionar a um modo de escrever por decreto, mais ainda sem acautelar a sua inter-dependência intrínseca com o modo de falar, só podia dar nisto: agora temos PATOS, meus caros. A somar aos “contatos” e aos “fatos”.

Na minha infância lia banda desenhada do Tio Patinhas: era uma criatura intrigante, um pato (uma ave) algo neurótico que fetichizava o dinheiro sem nunca se perceber muito bem para quê. Parece-me assim justo que o fundo do poço deste desacordo seja por via do “pato”, nunca se tendo percebido neste descalabro escudado protocolarmente onde é que os especialistas queriam chegar – além de umas enunciações vagas a respeito de uma unificação por decreto, quando esta unificação ganharia sim pela fertilização semântica. As reuniões do “pato ortográfico” devem ter sido de arrepiar, cálculos algorítmicos em redor da poesia que reside intrinsecamente no dizer e no escrever.

Mandaram amputar palavras que funcionavam e se explicavam etimologicamente, agora é a desbunda das motoserras a cortar a eito. Absolutamente trágico; ou TÁGICO, um dia destes.

Advertisements