Tão perto.

Chego à estação cedo, vultos da noite ainda em dissipação, no torpor de uma gripe que ainda morde e de um luto recente ainda no seu trabalho… Primavera adiada antes mesmo de o ser. Fim de semana cinza, murcho. O dever chama na capital. Embarco já determinado a viajar sem memória nem verbo, poupando-os para as horas intensas que me esperam.

Num assento próximo, um homem de idade equivalente à minha, quiçá um pouco mais novo, habita claramente o estado oposto ao meu. Alerta, conversador, enérgico, vai deixando saber que vive no estrangeiro e regressa aos Açores para estar com os filhos ainda hoje. A euforia incontida é palpável, celebratória, e eu, não muito dado a confraternizações espontâneas, ainda assim sorrio e reflicto a cumplicidade que consigo amealhar. Partimos, rumo à capital onde eu cumprirei o meu trabalho e ele embarcará na sua escala final rumo à família.

Quinze minutos de viagem volvidos, paragem súbita da embarcação no meio do mato. Expectativa. Dois minutos volvidos, voz formal dá conta de que o combóio colheu um pobre homem: de algum modo se subentende, na informação, um suicídio. Funcionários cruzam as carruagens, apressados, multiplicando-se em procedimentos.

A boa disposição do meu vizinho evapora-se, dá lugar a um pânico desmedido: “Fiz eu quatro voos para ver hoje os meus filhos, não posso perder esta ligação em Lisboa! Tenho voo às 16h, e foi este pobre coitado escolher logo agora para se matar. Sorte a minha!…”

Ninguém reage. Todos pensamos, presumo. Da minha parte, observo quão prematuro é este pânico do vizinho de carruagem (são pouco mais de 10 da manhã). Observo a assimetria entre a exigência do impossível (materializar-se em Lisboa) e a perda súbita, violenta, de uma vida que acabou de ocorrer a escassos metros de onde nos encontramos, mesmo que por nós não presenciada. “Sorte a minha?…” Sorte a dele, homem.

Passam bombeiros na linha, semblante cerrado. Heróis sem nome nem voz, desde logo pelo que terão de presenciar e carregar, no sentido o mais literal possível.

Meia hora mais tarde, o comboio arranca. Uma voz feminina, possivelmente sintética, pede desculpa pelo atraso e anuncia a estação seguinte. O vizinho acalma, não antes de guardar uma reflexão-contrição pelo pobre falecido: “Porque o terá feito? A vida é tão bonita. E logo no Dia do Pai…”

E não mais se fala do incidente. O comboio que nos leva, finalmente, até Lisboa, esta mesma máquina esmagou um ser humano. E em trinta minutos a ocorrência foi resolvida, dissipada, expurgada da nossa inter-locução. E voluntariamente, da consciência de cada um de nós. Penso ainda no maquinista, e pergunto-me se terá sido ele a terminar a viagem.

A morte tão perto, tão rápida, tão simples. No Dia do Pai.

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