It’s not about Joana.

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Entre ontem e hoje, as redes sociais têm fervilhado de exaltação a propósito de um vídeo protagonizado pela artista Joana Vasconcelos para a campanha “E se fosse eu?” : uma campanha de consórcio onde figuram, entre outros, a Plataforma de Apoio aos Refugiados e a RTP. O objectivo declarado da campanha é a sensibilização da população portuguesa para o drama vivido pelos refugiados; o meio utilizado é a proposta de que cada um de nós se imagine na iminência de ter de fugir de uma situação de catástrofe, deitando mão aos pertences que consideramos essenciais, depositando-os numa mochila. E só o que cabe na mochila poderá ser levado.

Anteontem o exercício multiplicou-se por escolas primárias, procurando sensibilizar as crianças portuguesas para a realidade que, não sendo a sua, é uma realidade dos dias de hoje (ou hoje mediaticamente eleita): seres humanos que perdem tudo, reduzidos a uma mão cheia de pertences e a uma integridade física, psicológica e afectiva em risco de ruptura absoluta e irreversível. As crianças das escolas portuguesas foram assim convidadas para um “show and tell” dos pertences que considerariam essenciais em situação de catástrofe. Em paralelo, a RTP realizou um conjunto de vídeos nos quais as mais diversas figuras públicas realizam um exercício análogo perante as câmaras. O próprio Presidente da República dá o seu testemunho, elegendo os livros que poderia carregar por entre os hipotéticos bombardeamentos. Marcelo lê “Guerra e Paz” ao som das bombas: aqui fica um quadro.

As vozes de indignação nas redes sociais perante esta campanha têm-se então focado no depoimento da artista Joana Vasconcelos. Alega-se futilidade nas suas escolhas, falta de sentido da realidade. iPad, iPhone, cadernos para desenhar, lãs para tricotar, óculos de Sol, jóias (a adenda “…portuguesas” é genial): efectivamente, poder-se-ia tratar de uma mala de férias num destino exótico.

Mas pergunto: não será o depoimento de Joana Vasconcelos o passe de magia que nos desvia a atenção da essência do problema? O alvo pronto e caricatural que ofusca a real escala do exercício?

O que pode uma campanha de sensibilização para os refugiados obter de tangível quando se mantém comodamente distante da realidade a que se reporta, geográfica e semanticamente? O que pode essa campanha então produzir, que não uma ficção? Um acto simbólico, sim, um futuro dentro do possível; uma reflexão colectiva, mas em verdade destituída de contributo porque situada no campo do inimaginável: literalmente impossível de imaginar como seria/será.

Mais ainda: será o exercício escolar da mochila infantil um proto-exercício militar, uma iniciação precoce ao horror, devidamente acomodado por uma narrativa de escassez, cercado e embebido pelos mais diversos e já habituais rituais de consumo? À Quarta-feira é a escova de dentes na trouxa, no Sábado seguinte é o deambular do costume no Primark, vasculhando os trapos à procura da T-shirt Batman XS.

O depoimento de Joana Vasconcelos terá pelo menos a vantagem de expor, voluntaria ou involuntariamente, o “nonsense” que reside na raiz da campanha. Da minha parte, sou capaz de preferir a sua frivolidade ao exercício do medo realizado sobre a tenra idade: podemos sempre observá-la na óptica do humor (a vertiginosa descolagem da realidade por parte das estrelas é cada vez mais hilariante); o mesmo exercício de humor já não consigo sequer tentar ao ver crianças convidadas a imaginarem-se a perder tudo.

Enfim, isto ou o seu contrário, à semelhança dos paradoxos que se nos multiplicam e entranham.
Pensando em directo, que é o que os dias de hoje nos exigem.

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