É UM FATO, ENTROU EM CONTATO E CELEBROU UM PATO

O que o desacordo ortográfico não previu foi que as pessoas continuassem a ser criativas com a língua. E sabem que mais? É um direito e um dever – é pelo uso corrente que a língua evolui e se transforma.
 
Mas uma coisa é deixar a língua criar-se e recriar-se, transformando-se por sedimentação do uso, outra é tentar fazê-lo por decreto. Resultado: ao decreto, cínico e algorítmico, soma-se a desorientação dos cidadãos que, ao falarem e escreverem, querem acreditar que não há “machado que corte a raiz à língua” (parafraseando outras aventuras). A raiz etimológica que, uma vez perdida, se soma a tanto património que se dissipa em nome de sermos muito modernos, globais, eficientes, muito “conforme deve ser”. Sendo que este “deve ser” nunca é verdadeiramente claro, nem conclusivo, nem comprovado. É o que deve ser, pronto. O acordo é o que “deve ser”. Porquê? Porque é o que deve ser.
 
A língua continuará a mudar, mesmo com o colete de forças do desacordo: mas começa agora a mudar de forma perversa – não por dinâmica entre a escrita e a fonética, não por natural sedimentação de comunicação corrente, mas por -equívocos- gerados pelo decreto ortográfico.
 
É isto que não parece interessar aos defensores da nova ortografia algorítmica: dizer “é simples, escreve-se como se pronuncia” não resolve os danos fonéticos que se acumulam pela inevitável desorientação que o desacordo está a provocar.
 
O melhor exemplo?
“Contato”.
“Contatar”.
Esta aberração anda a grassar mais rapidamente que uma praga: em avisos, documentos, placas. “Em caso de avaria, contate…”
 
Não tarda nada, o contato é oficializado, o que será seguramente mais cómodo do que fazer a pedagogia da origem do termo e do porquê do “C” que é ceifado à toa. E que se pronuncia. Ou será que vamos ter em breve consoantes-fantasma, que não se escrevem mas se pronunciam?
 
O único efeito que me é dado a ver deste “acordo” parece ser mais gente a dar erros – quer se considere a ortografia original, quer a ortografia acordista.
 
Pois siga o caos, cá estaremos a tentar “contatar-nos” o melhor que nos for possível.
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