O vídeo -é- autêntico.

Estão todos a bater no novo vídeo promocional do Porto: que é estereotipado, que não representa a cidade, que é tudo menos autêntico, que é redutor da verdadeira dimensão e diversidade urbana. Assim sendo, é o retrato fiel dos tempos que vivemos: a domesticação do exotismo, o romantismo da pobreza, o sorriso manso da sobrevivência, a erradicação do arrojo – com excepção da acrobacia, que é espectáculo. O resto é picar o ponto.

As cidades periféricas violentam-se a si mesmas, lançando o léxico da metrópole sobre a aldeia, destituindo-a de dignidade. O Porto sempre foi interioridade, severidade, melancolia – tudo coisas pouco vendáveis na era do turismo eufórico, do desvairo escrutinado e parametrizado. Há por isso que lhe torcer o carácter até que a vida se lhe esvaia. Tão jovens, tão já sem vida: a expressão da menina/personagem no final do vídeo chega a ser sinistra, na sua sensualidade forçadamente inócua.

O empobrecimento neoliberal não é só uma estratégia financeira; é também semântica e patrimonial. É, em última instância, uma estratégia de empobrecimento existencial, redutora das pulsões, da promessa de cada um. Inimiga da ambivalência, do que é complexo ou imprevisível, do que não quer ter nome. É uma imposição em tons pastel, embrulhada em lençóis etéreos e amaciados. O postal precede a paisagem, e ao precedê-la, decreta a estreiteza do que a paisagem acolhe.

Actualização: 
O “backlash” tem destas coisas: o vídeo do Porto Autêntico parece ter-se evaporado das redes, suponho que por força da rejeição aparentemente unânime de que foi alvo. Não só o vídeo desapareceu, como o destaque ao seu lançamento na página da Câmara parece ter também sido retirado. Para todos os efeitos, nunca existiu.
Entendo que merece sobreviver à voragem dos media, como retrato fiel da alucinação que vivemos.
Alguém o guardou?

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