Osiris e os estigmas

Um dos motivos que ouço invocados por parte de quem não aprecia a canção “Telemóveis” de Conan Osiris é a suposta “estupidez” da letra. Acho curiosa esta observação: encontro na letra uma série de figuras de estilo que se reportam à excessiva fiabilidade que colocamos na tecnologia, à falência das relações, à renúncia da complexidade, ao espectro da falência pessoal. Intuo que a suposta “estupidez” da letra vem de uma convenção tácita no que diz respeito à poesia: que haverá supostamente temas e palavras que não são suficientemente “nobres” para figurarem neste léxico literário.

Subjacente estará a ideia de que não se pode usar o telemóvel como metáfora, porque será demasiado trivial. Como se o nosso quotidiano fosse irremediavelmente divorciado da elevação da “Arte” com “A” maiúsculo. E como se os clichés do “amor”, da “lua”, do “outono”, do “mar”, etc etc etc, contivessem intrinsecamente os limites da expressão poética.

Ou seja: mais um estigma que Osiris estilhaça. Bem haja.

 

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