NoiseWise

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EN and PT versions of my introductory text for the PhD Design conference, 2017. With thanks to helena Sofia Silva for the PT translation.


NOISEWISE:
Design Research in face of current challenges to knowledge

The recent and growing ransomware virus trend has been raising the levels of concern for the safety, integrity and accessibility of our information; in one second, the wrong click may wipe out our personal digital heritage once and for all. Yet even more concerning may be the ways in which it has managed to wreak havoc on certain public infrastructures and private core companies: on the May 2017 cyberattack, the UK National Health Service was forced to revert to manual prescription among the infochaos, just as Portuguese emergency services reverted to radio communication as a preventative measure.

This sequence of events may be regarded as a manifestation of a broader set of challenges we face nowadays; on one hand, it exposes an ironic frailty at the core of the hyper-complex state of technology we have developed and subscribed to as an unquestionable paradigm. On the other hand, and equally as ironically, it sets a reversion into analogue, even manual procedures, that reveal themselves ultimately more reliable in times of crisis. So much for deterministic progress, then: Brave New World ends up in a black box, and the black box is bursting at the seams, and the black box is encrypted. Now, shall we wait until AI has woven itself effectively into our bodies and we have fully delegated our cognitive and vital functions? In this ever-more-likely scenario, a hacking might just turn out to be the last one.

The ransomware trend may also be regarded as a metaphor: for the ways scientific knowledge is often far from openly accessible for the purpose of scientific advancement – and equally a metaphor for the ways in which science seems to be increasingly becoming hostage to agendas, be it financial, political or other. Recent echoes from the US Government voicing its willingness to veto impartial research pertaining to climate change (and elsewhere to withdraw the funding of bodies and projects whose findings do not align themselves with political agendas) are deeply concerning signs when it comes to the continued maintenance and nurturing of the sacred principle of scientific impartiality.

Agenda-driven Science is, one may argue, in line with the broader phenomenon of fake news: ultimately unreliable, but more dangerously, ultimately capable of rendering impartial knowledge and information unreliable by association, as one and the other become increasingly harder to tell apart. And this happens in part through an ever-increasing access to ever more powerful design tools. Again, the irony: design sophistication has flattened the authoritative formation (and formality) of content. In a sense, all is noise already; the question is, is this syndrome reversible?

On a broader perspective, we may posit that purposeful knowledge is in the process of being neutralised by the sheer magnitude of paradoxical information, the allure of speed betraying our ontological need for depth. Our struggle with this kind of Noise is particularly challenging because it provides a very effective semblance of content – but hardly or rarely a narrative, a context or a canon.

Noise is therefore either the endpoint of encryption, or an induced omnipresence (and therefore a uselessness) of meaning.

Which brings us to Design Research. A fairly recent endeavour in its scientific ambition, it has been consolidating itself as a discipline both by applying and customising scientific paradigms and methodologies as required by its own field – as well as by making itself available to other disciplines that may benefit from the input of design.

The premise of UD17 – noiseWise is that design research may point towards a wide range of contributions, both in the sciences and in civic environments – and we believe these contributions may be able to converge in a shared mission: to ensure, confer and preserve the presence of meaning and purpose among the current state of cognitive volatility.

Furthermore, the Humanities and Social Sciences face the challenge of incorporating a critical and interpretative voice that could attempt to regulate and harmonise what at times seems to be an exponential technological development devoid of the sense of its own social or cultural impact: case at hand, the utopia of online connectivity has at some point given way to a neurosis of ubiquitous surveillance and compulsive over-exposure. Yet the party goes on unabated and unchallenged. Make no mistake: this is not a manifesto against technological development, but rather a call for its wise and mindful mediation and incorporation.

Could design research lead this process of decipherment and re-centering of current scientific progress? We believe the answer may be in the affirmative: from research that casts light into contemporary communication phenomena, to projects that reveal the dynamics and conflicts between tradition and progress. From pedagogical assets in our relation with technology, to the actual aesthetic and functional betterment of that same technology. From the tangible facilitation of emerging communities to ensuring existing communities avoid the traps of exoticisation and loss of self-determination.

More importantly, we believe design research needs to build and maintain bridges with other disciplines if it is to flourish in its own terms, and effectively contribute to that truthful cliché we have all wanted all along as researchers: “A Better World”. And a Better World needs to be built just as it needs to be interpreted, communicated, provided with forms, translated into tools and the means to flourish. A Better World is based on a wealth of meaningful and purposeful knowledge; in other words, it is based on wisdom. As design researchers, we will be delighted to provide a continued contribution; and as doctoral students, we will do our darn best to ensure the future turns out to be wiser than the present.


NOISEWISE
Investigação em Design face aos actuais desafios do conhecimento

O recente e crescente fenómeno de vírus ransomware tem aumentado os níveis de preocupação com a segurança, integridade e acessibilidade da nossa informação; num segundo, o clique errado pode apagar permanentemente a nossa herança digital pessoal.
No entanto, são mais preocupantes as formas como essa ameaça se tem feito sentir sobre determinadas infraestruturas públicas e privadas: no ciberataque de 12 de Maio de 2017, o serviço nacional de saúde do Reino Unido, no meio do caos, viu-se forçado a retomar um sistema de prescrições manuais, do mesmo modo que os serviços de emergência portugueses recorreram à radiocomunicação como medida preventiva.
Esta sequência de acontecimentos pode ser vista como uma manifestação de um conjunto mais amplo de desafios que hoje enfrentamos; por um lado, ela expõe a irónica fragilidade que reside no centro da tecnologia hiper-complexa que desenvolvemos e subscrevemos enquanto paradigma inquestionável. Por outro lado, e de forma não menos irónica, opera um regresso a procedimentos analógicos e manuais que se revelam mais fidedignos em tempo de crise. Eis o valor do determinismo do progresso: o admirável mundo novo reduz-se a uma caixa negra, e essa caixa negra está a rebentar pelas costuras e encontra-se encriptada. E agora? Devemos esperar até que a Inteligência Artificial se tenha efectivamente entretecido nos nossos corpos e tenhamos passado a delegar as nossas funções cognitivas e vitais? Neste cenário cada vez mais provável, qualquer sabotagem pode muito bem ser a derradeira.
O ransomware pode também ser observado como metáfora das formas como o conhecimento científico se encontra com frequência muito longe de estar prontamente disponível, mas também das formas como a ciência se tem tornado refém de agendas – sejam estas financeiras, políticas e outras.
Ecos recentes do governo dos EUA, e da sua vontade de vetar investigações imparciais sobre as alterações climáticas (e de, noutros domínios, retirar financiamento a organismos e projectos cujas conclusões são discordantes da sua agenda política) são sinais profundamente inquietantes no que diz respeito à manutenção e estímulo do princípio sagrado da imparcialidade científica.
Podemos argumentar que a instrumentalização da ciência se alinha com o fenómeno da imprensa falsa: não é fiável mas no entanto é perigosamente capaz de, por associação, descredibilizar conhecimento e informação imparciais, à medida que uma e outra são cada vez mais difíceis de distinguir. E isto acontece em parte através do acesso crescente a ferramentas de design cada vez mais potentes. Uma vez mais, a ironia: a sofisticação do design fez tábua rasa da formulação (e formalidade) autoritária do conteúdo. De certa forma, tudo é já ruído; a questão é, será esta síndrome reversível?
Numa perspectiva mais alargada, podemos argumentar que o conhecimento útil está em processo de neutralização pela magnitude de informação paradoxal, e que o fascínio da velocidade está a trair a nossa necessidade ontológica de profundidade. A nossa luta contra este tipo de ruído é especialmente desafiante na medida em que ele fornece uma eficaz ilusão de conteúdo – mas raramente uma narrativa, um contexto, um cânone. O ruído é, assim, ou o resultado da encriptação, ou uma omnipresença induzida (e portanto uma inutilidade) de sentido.
O que nos traz à investigação em design. Ainda recente na sua ambição científica, tem vindo a consolidar-se enquanto disciplina quer através da adopção e customização de paradigmas e metodologias científicas, como lhe é exigido, quer abrindo-se a outras disciplinas que podem beneficiar do seu contributo.
A premissa do UD17 – noiseWise é a de que a investigação em design pode apontar na direcção de um amplo espectro de contribuições, quer no domínio das ciências, quer no
domínio dos contextos cívicos. Acreditamos que estas contribuições podem convergir numa missão partilhada: garantir, conferir e preservar a presença de sentido e de propósito por entre a actual volatilidade cognitiva.
Para além disso, as Ciências Sociais e as Humanidades enfrentam o desafio de integrar uma voz crítica e interpretativa, que possa regular e harmonizar o que por vezes parece um desenvolvimento tecnológico exponencial, desprovido do sentido do seu próprio impacto sócio-cultural: a certa altura a utopia da conectividade deu lugar à neurose da vigilância ubíqua e da sobre-exposição compulsiva.
E a festa continua, sem enfraquecer, sem se questionar. Tenhamos claro: este não é um manifesto contra o desenvolvimento tecnológico, antes um apelo à sua mediação e incorporação sensata e consciente.
Pode a investigação em design conduzir este processo de decifração e reposicionamento do progresso científico actual? Acreditamos que a resposta é afirmativa: da investigação que esclarece os fenómenos da comunicação contemporânea, aos projectos que revelam as dinâmicas e conflitos entre tradição e progresso. Das ferramentas pedagógicas na nossa relação com a tecnologia, às melhorias funcionais e estéticas dessa mesma tecnologia. Da facilitação tangível de comunidades emergentes, à garantia de que comunidades existentes serão capazes de evitar a armadilha do exotismo e a perda de auto-determinação.
Acima de tudo, acreditamos que a investigação em design precisa de construir e conservar pontes com outras disciplinas se quiser crescer nos seus próprios termos, contribuindo efectivamente para esse cliché legítimo que todos sempre perseguimos enquanto investigadores: “um mundo melhor”. E um mundo melhor precisa de ser construído tanto quanto precisa de ser interpretado, comunicado, formalizado, transformado em ferramentas e meios de crescimento. Um mundo melhor constrói-se sobre uma massa de conhecimento útil e munido de propósito; por outras palavras, constrói-se sobre sabedoria. Enquanto investigadores em design, importa-nos contribuir para esta construção de forma contínua; e enquanto estudantes de doutoramento, daremos o nosso melhor para assegurar um futuro mais sábio.